O SNS pelos leitores do PÚBLICO: “No dia em que gerei vida, fui confrontada com a morte”

Vários leitores partilharam experiências marcantes que viveram ao longo das quatro décadas de Serviço Nacional de Saúde, que se assinalam este domingo. O PÚBLICO selecionou 11 histórias.

Transplantes, partos, cirurgias de urgência, diagnósticos errados. O PÚBLICO desafiou os leitores a partilharem experiências que viveram ao longo dos 40 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Nestes testemunhos, há bons momentos, mas também há descontentamento com os serviços prestados. Leia algumas das histórias na primeira pessoa. Os testemunhos foram editados para facilitar a compreensão dos textos.

“Devolveu-nos a vida que hoje temos”

Rita Moura de Oliveira, 45 anos, editora

Em 2016, em apenas 24 horas, o SNS e o Hospital Santa Maria salvaram a minha vida e a de uma das minhas filhas. Grávida de gémeas de 34 semanas, tive de ser submetida a uma cesariana de urgência, por uma delas estar em sofrimento. Nasceu com índice de Apgar 1 [um método usado para avaliar rapidamente a saúde de um recém-nascido, numa escala de 0 a 10, sendo o valor mais baixo o que indica que o bebé precisa de mais cuidados], e durante duas horas lutou, com a ajuda de uma grande equipa, para sobreviver.

Menos de 24 horas depois eu tive uma dissecção da aorta, à qual apenas cerca de 10% das pessoas sobrevivem. Já não era uma urgência, era uma emergência, e só por estar naquele hospital, com todas as valências que tem, conseguiram salvar-me a vida. Estava no local certo no momento certo, rodeada dos melhores profissionais que por sorte estavam de serviço nessa noite. Em nenhum outro local este “azar” teria sido resolvido com tanta “sorte”.

Nos últimos três anos tenho sido acompanhada regularmente em Santa Maria, onde não se tem poupado nos exames e no acompanhamento que me fazem.

Comigo, o SNS funcionou e continua a funcionar. No dia em que gerei vida, e em que fui confrontada com a morte, devolveu-nos a vida que hoje temos.

“Tem bons profissionais que dão tudo de si”

Susana Carinhas Miranda, 40 anos, bibliotecária

Sou transplantada renal há 14 anos. Antes do meu transplante fui acompanhada durante um ano e meio pela equipa de pré-transplante do Hospital de Santa Maria, coordenada pelo Serviço de Nefrologia desse mesmo hospital. Foi uma experiência assustadora porque, na altura, tinha 24 ou 25 anos, tinha acabado o meu curso de especialização e iniciado o meu percurso profissional.

Toda a doença, consequências e caminhos a seguir foi-me explicada por essa equipa super profissional, simpática e disponível. O susto inicial transformou-se em confiança e determinação.

Em Fevereiro de 2005, comecei o meu tratamento de hemodiálise, na Clínica de Hemodiálise do Lumiar (ligada aos Hospitais de Santa Maria e Curry Cabral). Aí fiz hemodiálise durante seis meses, três vezes por semana, durante horas.

Também aí fui muito bem tratada, acarinhada. Fui seguida por uma equipa de enfermeiras e enfermeiros cinco estrelas. Simpáticos, atenciosos, profissionais que nunca me deixaram faltar nada de essencial para que aquelas horas passassem de forma mais confortável possível.

A minha experiência no SNS não pode ser melhor. Não tem os luxos dos hospitais privados, as mordomias destes, mas tem o essencial: bons profissionais que dão tudo de si para o bem-estar dos doentes.

“Se não fosse o serviço de queimados não estaria aqui”

Helder Simões, 61 anos, bancário

Marcante. Salvaram-me a vida. Tive 78% do corpo queimado e se não fosse o serviço de queimados do Hospital de São José não estaria aqui a escrever-vos. Os hospitais privados não têm serviços à altura destes grandes queimados. Fiz 50 transfusões de sangue e 70 enxertos. Estive em coma dois meses e um ano a recuperar. Bem-haja, SNS.

PÚBLICO -
Paulo Pimenta

“Nunca tinha visto um ambiente de trabalho assim”

Mariana Vilas-Boas, 72 anos, reformada

A 20 de Maio de 2014, era transplantado no Hospital de Santa Cruz, em Oeiras, o meu filho mais novo (23 anos) com um rim doado pela irmã mais velha. O rapaz teve um pós-operatório complicado que fez com que estivéssemos no hospital 64 dias.

Este tempo deu para eu, como mãe e acompanhante, me desse conta de muita coisa. Fiquei espantada com a riqueza humana dos que lá trabalhavam. Podia, por isso, contar várias coisas, mas conto apenas uma.

Foi na semana dos feriados de Junho. Alguns enfermeiros tinham as suas miniférias marcadas e tinham feito as mudanças de doentes para que os profissionais que ficassem pudessem controlar melhor os doentes. Na noite que antecedeu um dos feriados, de repente, aquele 3.º andar foi objecto de uma enorme reviravolta. Os doentes em cuidados intermédios foram para outro lado e o movimento silencioso dos profissionais dava para perceber que algo inesperado tinha acontecido. O que aconteceu: ficaram inesperadamente disponíveis vários órgãos para transplantação e foram chamados todos os profissionais que eram necessários para acudir a tal emergência. Não havia um queixume, uma má cara diante de férias interrompidas. Eu assistia a tudo verdadeiramente espantada. Nunca tinha visto um ambiente de trabalho assim.

Ali praticava-se “medicina de ponta”, mas envolvida numa verdadeira arte terapêutica.

No fim daquela semana, quando tudo acalmou fui falar com a enfermeira chefe do piso e contei-lhe a minha experiência.

Foi a meia dúzia de médicos que iniciou este serviço depois de 1974 que fez da unidade o pilar deste hospital. Agora querem fechá-lo e transferir tudo isto para outros hospitais. Se assim fizerem, destruirão um tesouro, porque a unidade não se transfere e demora a construir.

Tenho a experiência de temporadas passadas em hospitais públicos em Washington e Milão, mas como em Santa Cruz nunca tinha visto.

“Tanto tempo com braço partido e engessado”

Manuel Fernandes, 49 anos, bancário

A 23 Setembro de 2018 fracturei o rádio do braço direito e fui atendido e engessado no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos. Só a 8 de Outubro (mais de 15 dias depois) é que fui finalmente operado... Tanto tempo com braço partido e engessado. Só com o osso partido já consolidado é que fui operado... Uma vergonha.

“Espero que os interesses privados não o destruam”

Zeferino Coelho, 74 anos, editor

Há três anos, a minha companhia de seguros comunicou-me que o seguro de saúde — que a empresa onde trabalho subscreve há mais de 20 anos — caducara por eu ter completado 70 anos. Colocado perante este facto, e recusando subscrever novo seguro dado o preço e as restrições obscenas que me apresentaram, entreguei-me, confesso que com grande receio, ao SNS. Hoje, após estes três anos de experiência, devo dizer, e quero dizer, que os cuidados que me prestam nos hospitais do SNS em nada são inferiores aos que me eram prestados num hospital privado. Infelizmente, sou utente assíduo do SNS e só posso testemunhar a excelência do serviço. Espero que os interesses privados não o destruam e que os responsáveis políticos o subsidiem e giram de modo a que ele sirva, cada vez melhor, os interesses dos cidadãos que o pagam.

“Mãos diligentes e experientes salvaram-me para a vida”

Silvana Resende, 59 anos, Assistente Técnica

Em Junho de 2017, na madrugada do dia 15, sofri a ruptura de um aneurisma cerebral.

Imprevisível e potencialmente letal, fui rapidamente transportada para o Hospital de Santo António. Uma equipa de neurocirurgia tomou em mãos um quadro clínico com todos os ingredientes para correr mal, mas na imprevisibilidade daquela madrugada, mãos diligentes e experientes, arregaçaram mangas e salvaram-me para a vida.

Como lhes estou grata. Não esqueçamos que hoje usufruímos de um SNS a um nível muito elevado, com rigor, competência e desvelo pelo utente.

PÚBLICO -
Manuel Roberto

“O hospital salvou-me a vida, ao meu pai não conseguiu”

Ana Almeida, 48 anos, professora/investigadora

Entrei no Hospital de Santa Maria em Julho de 2016, dois anos depois do meu pai. O meu pai não chegou a sair, com excepção de uma pequena temporada no IPO. Eu ainda aqui estou após um internamento de oito dias.

Os desfechos foram diferentes, mas o cuidado, carinho e empenho com que fomos tratados foram os mesmos. O hospital salvou-me a vida. Ao meu pai não conseguiu, apesar do enorme esforço de todos nos quatro serviços por onde passou.

Quando falo em “hospital” refiro-me às pessoas, todas sem excepção — pessoal administrativo, assistentes sociais, auxiliares, técnicos de diagnóstico, enfermeiros e médicos que também me/nos ampararam, muito para além das suas “obrigações”. Não me esqueço do médico que me atendeu na Urgência, que não desvalorizou os meus sintomas, acreditou que eu não estava mesmo bem, que não pensou que era o stress, como me disseram na véspera num hospital privado. Repetiu exames várias vezes, enviando-me para observação com três possíveis diagnósticos, nenhum deles “famoso”.

Internada em Cardiologia “em perigo de morte súbita”, um cateterismo e uma batelada de análises depois lá chegou o diagnóstico: miocardite de origem viral, palavrão de que nunca tinha ouvido falar.

Mas também devo dizer que há coisas que não são assim tão “fascinantes” no SNS: o meu pai e eu ficámos internados um dia nos corredores. Eu tive “sorte” porque foi numa cama e durante a noite fui para uma enfermaria improvisada, o meu pai esteve numa maca e sempre no corredor até ir para a enfermaria. A comida distribuída pelas empresas de catering que apresentam os preços mais baixos é péssima (digamos que peixe frito aos doentes internados em Cardiologia não será propriamente o melhor petisco…).

Neste meu internamento encontrei cumplicidades nas colegas de enfermaria que muito ajudaram a suportar melhor estes dias, refilámos, exigimos condições, vestimo-nos durante o dia e só à noite as batas do hospital. Descobri que ali podia assistir a amores platónicos ao mesmo tempo que um filho abandonava o pai na enfermaria.

Percebi que se pode morrer com 45 anos à custa de um vírus mas também percebi que se pode ser salva pelo SNS, sem grandes condições, com muito profissionalismo juntamente com mimo como o luxo da “noite de torradas” organizada com a cumplicidade de uma auxiliar, a complacência do pessoal de enfermagem e o riso disfarçado de uma médica. Isto sim são coisas realmente fascinantes.

O SNS salva vidas [e com mimo].

“É visível e mensurável a degradação do SNS”

Rui Valente, 59 anos, engenheiro

Os meus pais têm 88 anos. Tal como a maioria dos idosos em Portugal vivem da pensão de reforma e a sua principal retaguarda é, para além da família claro, o SNS a que recorrem com muita frequência fruto das maleitas próprias da idade! Esta é a parte boa da história.

De resto, é visível e mensurável a degradação do SNS a que se assiste nos últimos três anos. A marcação de consultas passou a demorar quase um ano, a médica de família esteve mais tempo ausente do que presente. Sempre que tiveram necessidade de recorrer ao centro de saúde, com muita sorte, eram vistos pelo médico substituto, pelo substituto do substituto, e até pela estagiária do substituto do substituto! Invariavelmente, cada um deles, como não acompanhava os meus pais regularmente fazia prescrições provisórias e pedidos de exames complementares que se sobrepunham uns aos outros.

Há cerca de um mês a minha mãe começou a sentir uma dor na anca. Mais uma prescrição de um anti-inflamatório. Ao final de uma semana, porque não passavam as dores, voltou a uma consulta aberta. Eis senão que deu de cara com a médica de família que não via há quase dois anos...

“Porque só veio hoje?”

Gisela Cañamero, 59 anos, encenadora

Sexta-feira, 30 Dezembro 2019, algures perto de Beja — o interior rural desertificado de gente, e, também, de profissionais de saúde. Vou a conduzir, e surgem relâmpagos do lado direito. Uma trovoada seca, penso. Os relâmpagos mantêm-se durante tempo suficiente para que entenda que são fabricados pelo olho, o direito. Chego ao monte, consulto o Google. Fico estarrecida perante a hipótese de se tratar de um descolamento da retina, que pode levar à cegueira. Adormeço sobre a incredulidade. Sábado, 31 de Agosto: os relâmpagos continuam lá. Eu leio, estudo, investigo, escrevo antes de realizar qualquer dramaturgia e encenação. Ainda estou a digerir a impossível possibilidade.

Domingo, 1 de Setembro: foi preciso cair a noite para a pequena coragem da chamada à Saúde 24. Nunca me tinha socorrido desta linha. Atendimento atencioso e profissional por uma enfermeira, conto a história. Passa-me a uma outra enfermeira, o mesmo atendimento. E dizem-me que me vão encaminhar para a urgência do Hospital mais próximo: Beja, portanto. Desligo, aparvalhada pela “urgência”. Não consigo reagir, não saio de casa, vou dormir, acompanhada, do meu lado direito, por relâmpagos sem trovões.

Segunda-feira, 2 de Setembro, obrigo-me a ir à urgência do Hospital de Beja, a 30 quilómetros de onde moro. A referência da Saúde 24 tinha sido feita durante a noite. Muitas horas passaram, mas os administrativos que me atendem activam a entrada daquela emergência. Na triagem, dão-me a pulseira amarela. Passados 15 minutos sou chamada. Um médico jovem ouve-me com atenção, observa-me e pergunta: “Porque só veio hoje?” Fico sensibilizada com aquela pergunta.

Não há médico oftalmologista na urgência do Hospital de Beja e preciso de ser vista por um. O médico informa-me dos procedimentos: vai encaminhar-me para Évora, uma ambulância levar-me-á. Tempo de espera. Chega o carro com o condutor: pertence à Cruz Vermelha Portuguesa. Uma hora de viagem até Évora. Sala de espera, 15 minutos. Nova triagem, sou imediatamente encaminhada para Oftamologia. Passada meia hora sou observada pelo médico oftalmologista. De novo a pergunta: “Porque só veio hoje?”. Penso: é verdade, estes médicos importam-se. São-me colocadas gotas para dilatação, nova espera, nova observação. É-me feito o diagnóstico: descolamento vítreo, algo para ir “vivendo com”. Não tem a gravidade de um descolamento da retina. Sou avisada para ficar atenta a qualquer mudança, nesta ou na outra vista, e recorrer logo ao médico. Regresso na ambulância ao Hospital de Beja para fechar o processo.

Enfermeiras da Saúde 24, administrativos, enfermeiros e médicos dos Hospitais de Beja e de Évora, carro e profissional da Cruz Vermelha Portuguesa foram inexcedíveis no zelo desde as 12h até às 18h do dia 2 de Setembro de 2019 para me prestarem a assistência médica que precisei, quando dela precisei. Uma resposta adequada à situação problemática — onde, note-se, nunca me foi cobrado um cêntimo. Grata a todos. E grata por viver num país que conta, na sua estrutura de assistência aos cidadãos, com um pilar social chamado Sistema Nacional de Saúde.

PÚBLICO -
Nelson Garrido

“Tenho pena de quem não tem condições para ter acesso a um hospital privado”

Paula Candeias, 28 anos, auxiliar de farmácia

Eu tenho duas histórias vividas na primeira pessoa, fora as outras que ouvi de terceiros. A primeira foi o parto do meu filho, provocado às 41 semanas, onde fizeram de tudo para que fosse parto normal. Oxitocina, rebentar a bolsa manualmente, descolar membranas, esperar até à última. De repente, e já no segundo dia de internamento, tinha dilatação feita. Mas o meu filho não tinha a cabeça na posição correcta, apesar de estar de cabeça para baixo. E tinha o cordão à volta do pescoço. Resultado: na sala de partos as parteiras disseram que não conseguiam fazer o parto. Teve de intervir a médica com ventosas. Depois surgiu outro medico, mais velho, que assim que olhou abanou a cabeça como sinal de que não estava a correr bem. Esse mesmo médico carregou-me na barriga até o meu filho sair, para ajudar. O meu filho nasceu, mas não chorou. Teve índice de Apgar 3 no primeiro minuto e teve de ser reanimado pela equipa de pediatras presentes. Esteve três horas numa incubadora até vir para junto de mim. Foi um trauma tremendo, que jamais irei esquecer. Conheço pessoas que estiveram menos tempo no hospital do que eu e a quem fizeram cesariana. Queixo-me, não do que sofri, mas pelo risco que o meu filho correu. Era desnecessário.

A outra situação: o ano passado senti-me mal, fui ao hospital, fizeram análises e havia um valor muito superior ao normal e isolado. Ouvi pela boca de um médico, enquanto passava o turno a outro, que desconfiavam que eu tivesse leucemia. Fiquei assustadíssima. O médico que assumiu o turno da manhã mandou repetir as análises e fazer o chamado esfregaço. Não tinha nada, mas eu e a minha família sofremos muito até saber o resultado. Acho que se devia ter um pouco mais de tacto, de consciência. Acredito que o SNS faz o que pode, com o que tem. Claro que há bons profissionais, mas vos garanto... Um hospital privado, é um hospital privado. E tenho pena de quem não tem condições para ter acesso a um.