Janelas maternais

Uma das melhores janelas que se pode experimentar é a dos eléctricos tradicionais lisboetas. As carroçarias destes eléctricos, de desenho exemplar, incluem um sistema de janelas de guilhotina que permite a sua abertura total, oferecendo-nos uma experiência de mobilidade mais rica.

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ricardo campos

Faz parte do trabalho de um arquitecto estar em permanente extrospecção em relação ao meio envolvente, construindo a sua biblioteca pessoal de experiências referenciáveis para uso futuro — momentos arquitectónicos delimitados no tempo com a subjectividade inerente ao próprio observador. Nesse sentido, é uma profissão verdadeiramente a tempo inteiro.

O amante de arquitectura desfruta e aprecia um edifício bem desenhado, a sua eficácia funcional, um enquadramento que emociona, uns degraus que nos fazem sentir majestosos. Ao arquitecto não pode bastar o desfrutar do momento, a percepção emocional terá de ter sempre por companhia uma análise racional. Porque é que esses degraus nos fazem sentir majestosos? Há que medi-los, descodificá-los. É o espelho? O cobertor? O número de degraus? O facto de ter os focinhos ligeiramente chanfrados a reflectir umas linhas horizontais de luz enquanto se sobe? Ou uma combinação de vários? Ser apenas espectador deixa de ser uma opção, tornando-se inevitável dissecar constantemente as reacções emocionais — do que correu bem, do que correu mal em determinado lugar. O mundo construído torna-se um laboratório comum de ensaio para tudo: espaços, enquadramentos, materiais, a configuração de uma praça ou a altura ideal para um puxador.

Uma das melhores janelas que se pode experimentar é a dos eléctricos tradicionais lisboetas. As carroçarias destes eléctricos (modelo tipo Brill), de desenho exemplar, incluem um sistema de janelas de guilhotina que permite a sua abertura total, oferecendo-nos uma experiência de mobilidade mais rica. Usufruir de uma viagem sem vidro entre observador e observado, sentindo o vento e a temperatura como se estivéssemos na rua. É possível ajustar essa mediação através da nossa posição, mais resguardada e distante, ou mais ousada, já com a cabeça fora da carruagem em plena comunhão com a cidade.

Vistos de fora, todos ficamos bem no conjunto. Estando cada abertura associada a um assento, temos apenas uma pessoa emoldurada em cada janela. Altos, magros, baixos, gordos, bonitos ou feios — todos ficamos dignos e fotogénicos dentro desse enquadramento.

A beleza destas janelas extravasa a estética; a ergonomia e possibilidades de relação que a sua configuração permite é tão ou mais interessante do que a sua componente meramente visual. Com assentos ao lado, o peitoril fica à altura certa, funcionando como suporte dos braços a um nível que permite apoiar e manter a linha dos ombros relativamente baixa, relaxados, sem, no entanto, nos dar qualquer sensação de insegurança durante a viagem. Um pouco como acontece nas namoradeiras tradicionais adoçadas a muretes. Também a altura livre da janela aberta é acertada, ficando o perfil de madeira sempre acima do campo perspéctico do olhar, mesmo em pessoas mais altas, e sem nos deixar perdidos no enquadramento no caso dos mais baixos.

Acresce ainda o seguinte detalhe delicioso: a ligeira projecção que o parapeito faz para fora. Estes centímetros balançados dão-nos a sensação de estarmos já fora da carruagem, porém, amparados pelo veículo — fazendo-nos sentir como crianças a rodopiar na segurança do colo dos pais, protegidos, acarinhados. Que bom que seria se pudéssemos desfrutar mais vezes, e em mais sítios, de iguais janelas maternais.

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