Crónica

As cidades (não são) marcas

As cidades querem ser inconfundíveis, mas a mercantilização apaga os traços distintivos, ao mesmo tempo que implica uma simplificação da comunicação.

Há semanas, na conta do Twitter do presidente da câmara Fernando Medina, era partilhada uma notícia do The Times onde Lisboa era caracterizada como “a cidade das oportunidades para os investidores”.

Antes da estrutural crise económico-financeira que irrompeu em 2008 e que expôs a insustentabilidade dos actuais modelos de desenvolvimento, que as cidades competiam entre si para se comunicarem de forma atractiva, tentando conquistar investimento, postos de trabalho ou consumo.

Depois surgiu a crise. Agora que o mundo está em mudança e até Felipe Gonzalez (no El País do fim-de-semana passado), líder do governo espanhol durante década e meia, reconhece que o modelo do capitalismo triunfante se autodestrói, talvez fosse a hora de repensar o papel das cidades, os recursos e a forma como funciona o planeamento urbano.

Até Richard Florida ou Charles Landry, rostos do conceito “cidade criativa” que se tornou dominante nos processos de revitalização urbana de muitas metrópoles ocidentais desde a década de 1990, se tornaram cautelosos ou mesmo críticos quando hoje se fala de “marca cidade” e noções semelhantes. Na teoria, o desejo é que seja algo que consiga reflectir o pulsar da cidade, uma narrativa abrangente que espelhe a comunidade.

Mas será que isso acontece na maior parte dos casos? Como diz o geógrafo espanhol Oriol Nel-lo (no magnífico livro A Cidade em Movimento – Crise Social e Responsabilidade Cidadã) existem diversos problemas com esta lógica de competitividade territorial. Em primeiro lugar é preciso interrogar se quem está a competir são as cidades, ou os portadores de interesses económicos que neles estão radicados, sem que daí advenha melhoria nas condições de vida para muitos grupos sociais, principalmente se a fomentação desse ambiente sedutor acontecer à custa da precarização do trabalho, de redução dos impostos das empresas, mas com transferência da carga fiscal para os rendimentos de trabalho.

Também na construção da imagem da cidade, Oriol, identifica paradoxos. O ponto de partida consiste em seleccionar traços distintivos que identifiquem determinado lugar, desde que sejam considerados aprazíveis, o que cria essa contradição de se estar a atrair agentes comuns da globalização da economia, que nas diversas cidades onde operam acabam por contribuir para a homogeneização, fazendo desaparecer os traços diferenciadores que serviram de factor de atracção inicialmente.

As cidades querem ser inconfundíveis, mas a mercantilização apaga os traços distintivos, ao mesmo tempo que implica uma simplificação da comunicação. Se existe algo que define a cidade é a noção de movimento. A redução de uma urbe a uma imagem estável não só lhe elimina a complexidade, como fixa apenas alguns traços, tornando invisíveis os processos dinâmicos. Reduzimo-las a um rótulo, destinado à sua promoção. Isso talvez ajude à comercialização. Mas também contribui para que olhemos cada vez mais para elas como meros consumidores e não como cidadãos. Tudo o que não se adequa à marca que se pretende criar – bairros, ruas, actividades, pessoas – é cuidadosamente esquecido. Escondem-se contradições, arestas, complexidades. De tanto as reduzirmos a uma só possibilidade, por vezes tornam-se indecifráveis a quem nelas habita.

Foi por isso que senti estranheza ao ver a tal publicação no Twitter. Tive que olhar duas ou três vezes para perceber. A fotografia que ilustrava a notícia era da rua onde vivo há quase quinze anos, mas devidamente retocada, talvez para atrair os investidores globais. A maior parte nunca lá porá os pés. Mas não precisa. O capital é nómada. Compra habitação para especulação, mas não tem residência fixa. Move-se de cidade em cidade.