Fanzines, teatro e um bordado colectivo para falar de “bravas” inspiradoras

Entre o Porto e Amarante, o colectivo Pele pôs mulheres de diferentes gerações no centro da criação. Enxoval: tempo e espaço de resistência, que por estes dias se estreia no festival Mexe, é um teatro-fórum e um bordado colectivo.

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Nelson Garrido

 A vontade de pôr o feminino no epicentro da criação andava há muito tempo a pairar na Pele, estrutura artística com base no Porto e mais de uma década de trabalho apresentado. E a oportunidade de o fazer nasceu numa iniciativa com baptismo aparentemente estranho para a temática. O projecto Enxoval: tempo e espaço de resistência parte da “imagem de algo conservador”, o enxoval, para “desconstruir certos códigos e normas de conduta”. Com apoio da iniciativa PARTIS, da Fundação Calouste Gulbenkian, a Pele está a dar corpo à ideia desde Janeiro. E depois do lançamento da primeira das 12 fanzines As Bravas, homenagem a mulheres anónimas inspiradoras, o MEXE – Encontro Internacional de Arte e Comunidade recebe o primeiro e o segundo andamento do projecto: um teatro fórum, onde os estereótipos de género e o assédio sexual estarão na ribalta, e um bordado colectivo aberto a toda a comunidade.

O espectáculo #nãoénão (dia 15, 17h, Casa d’Artes do Bonfim) tem uma “base dramatúrgica” com raízes no Porto Oriental. Um grupo de jovens entre os 12 e os 17 anos – quase todos repetentes na experiência da arte com um outro projecto da Pele, em ilhas da cidade – partilhou com a equipa da Pele os seus quotidianos e histórias. Falou-se de feminismo, de género, de violência no namoro. Debateram-se limites. Alargaram-se horizontes.

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Fanzines foram ilustradas por Clara Não Nelson Garrido

Maria João Mota não esquece a “catarse” a que assistiu a 8 de Março, quando o grupo participou na manifestação desse Dia da Mulher, a propósito da greve feminista internacional. Com direito a oficina de criação de cartazes prévia e tudo. De todos os jovens, apenas um não era estreante naquele papel. E apesar de morarem a não mais do que 15 minutos a pé do local do protesto, também esse passeio foi para eles uma revelação. “São miúdos com um raio de acção muito diminuto, que conhecem muito pouco”, explica.

Uma das meninas, não autorizada pelos pais a estar na manifestação, mas integrante no posterior momento de debate sobre a manifestação, fez um comentário revestido de simbolismo: “Mostrou-se muito espantada por ver na televisão homens a gritarem e defenderem as mulheres”, recorda Maria João Mota. Naquele dia, diz, inaugurou-se um novo “compromisso”. E a verdade é que algo ficou: “Tempos depois vi dois deles numa concentração pela Marielle Franco, depois no 25 de Abril…”

A violência no namoro é um tema já diversas vezes tratado por Maria João Mota. E a co-fundadora da Pele sente uma degradação do problema. Mais controlo do telemóvel, das roupas, das companhias. Frases como “estava a pedi-las” já normalizadas.

No teatro fórum de dia 15 mostra-se “uma peça de um puzzle maior” já a ganhar forma também. De grupos “satélite”, a Pele vai consolidando uma “base sólida” para o seu Enxoval – projecto com outros segredos e iniciativas a divulgar mais tarde e no terreno até 2021.

Do Porto a Amarante

A cerca de 60 quilómetros, saindo do litoral para o interior, o Enxoval elegeu Amarante para trabalhar a questão da memória. Em Vila Chã do Marão e outras duas freguesias mais rurais o “património humano incrível” encontrado pela equipa da Pele transformou-se em motor de uma plataforma repositório de memória. As mulheres foram convidadas a levar objectos associados ao enxoval, essa situação de “passagem para outra vida”. Houve um folheto da campanha de Maria de Lourdes Pintasilgo, com quem uma das participantes fez campanha, o lençol da noite de núpcias de Emília, a foice de Arminda, a quem o marido deu um rebanho como prenda de casamento.

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Nelson Garrido

Das peças – e dos desafios de Maria João Mota – partiu-se para conversas informais. Às vezes provocadoras, outras ternurentas. Como era lidar com a menstruação nesses anos, as gravidezes escondidas até ao fim, a proibição do aborto, as diferenças salariais em relação aos homens.

“Há um património que reforça o estereótipo da mulher, mas há também um que fortalece a condição feminina”, aponta Maria João Mota. Da recolha dessas narrativas acabou por nascer uma colecção de fanzines – e uma plataforma com as histórias em formato áudio.

A primeira conta a história de Ana, uma mulher nascida a 6 de Janeiro de 1934. “Andávamos quilómetros descalças”, conta na gravação disponível numa página da SoundCloud. Caminhavam durante a noite, levavam a lenha aos padeiros de Moura, comiam “uma malguinha de sopa de couves cegadas ou traçadas, muito mal-amanhadas”.

Em breve, estarão disponíveis – em fanzine, com a assinatura da ilustradora Clara Não – mais duas histórias. No total serão 12. A de Fátima, uma prostituta que perdeu a guarda dos filhos e “empreendeu um processo de mudança inspirador”. E a de Rosalina, “uma livre” de Mondim de Basto, cuja história foi contada pela neta. “Com 16 ou 17 anos apaixonou-se por um homem de 70 e teve quatro filhos com ele. Foi muito criticada por toda a gente.”

Partindo desta ideia das “bravas”, explica Maria João Mota, o Jardim de São Lázaro vai ser palco de construção de um bordado colectivo, iniciativa também integrada no Mexe (dias 16, 17 e 20, às 17h30). Por lá, estarão algumas das mulheres de Amarante, mas também dos bairros de Lagarteiro e do Cerco, por exemplo. E quem mais queira aparecer: “A ideia é pedir a quem passe para bordar o nome ou algo que represente a sua ‘brava’, enquanto partilha a sua história.” No fundo, contribuir para a construção de um património de objectos e afectos, de palavras e memórias. Um bem que é de todos. Se não for pelo bordado, pode também ser pela tecnologia. É esse o desafio da Pele, que convida todos a enviarem áudios de um minuto e meio sobre mulheres inspiradoras. “Queremos conhecer as vossas bravas.”