Crítica

No Monverde de Amarante: o privilégio de juntar requinte e tradição

À cozinha com técnica e competência ao serviço dos produtos e receitas mais populares, o Monverde associa também a tradição das doses fartas e saborosas. Tudo num saudável e virtuoso equilíbrio com o ambiente requintado e serviço cuidado.

Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta

O Monverde é um empreendimento de enoturismo exemplar. Um oásis de requinte e bom gosto na região dos Vinhos Verdes, que conjuga o ambiente natural, a produção de vinhos e instalações hoteleiras modelares. Aos quartos e suítes disseminados por entre os vinhedos junta-se a alargada zona de bem-estar (piscinas e spa) e o núcleo central de acolhimento, com loja, área de provas e restaurante, também este com amplas varandas voltadas à vinha.

O sucesso e procura – ocupação média anual a rondar os 80% - fizeram já crescer a oferta, com uma nova área de requintadas suítes, que incluem piscina exterior e enoteca, num conjunto integrado na vinha e natureza que inclui ainda espaço de adega experimental e túnel sensorial a proporcionar completa experiência enoturística.

Há que franquear os portões da propriedade e percorrer a longa alameda ladeada de vinha até atingir o edifício central que à velha casa da quinta acoplou um núcleo moderno, em boa parte ocupado pelo restaurante. Espaço amplo, enorme pé direito e inundado de luz natural.

PÚBLICO -
Foto
Paulo Pimenta

O mobiliário e decoração elegantes não interferem com o contexto de informalidade e convívio, como é próprio do ambiente de vinhos e adegas. Em contexto rural e entre vinhedos, também a carta remete para o mundo rústico e natural da mais pura cozinha tradicional e produtos regionais, em boa parte da produção interna. Um privilégio.

Ao tradicional serviço à carta, junta-se a proposta de dois menus de degustação, com quatro e cinco momentos (38€/45€), essencialmente vocacionados para a prova dos vinhos da Quinta da Lixa, o rótulo da produção caseira. Ambos exigem, no entanto, reserva com um dia de antecedência.

Aos pratos de peixe - com pescada, polvo e bacalhau – e de carne, como pato, borrego e vitela, a carta junta “os nossos assados tradicionais”, de cabrito, bacalhau e nispo de vitela, em doses familiares propostas para os fins-de-semana e dias festivos.

O culto pela cozinha tradicional e produtos locais parece ser transversal à cozinha de Carlos Dias, o homem que comanda os fogões. Exemplar o “Bacalhau confitado com migas de samos e poejo”, e nem só por se tratar de uma receita rústica e de profunda tradição. O bacalhau lascado da melhor cura – coisa cada vez mais rara – as migas aveludadas com tomate de sabor intenso, mostram o apego à tradição culinária e qualidade do produto. Também pela rigorosa confecção, este é um prato exemplar e que só por si já justifica a visita ao Monverde.

PÚBLICO -
Foto
Paulo Pimenta

Como entrada, também outra convincente combinação à base de bacalhau e produtos tradicionais. “Lascas de bacalhau assado com morcela das beiras e broa de Avintes em azeite de Trás-os-Montes”, a descrição bastaria mas há que confirmar a genuína proveniência e qualidade dos ingredientes.

Do capítulo de entradas, provou-se também a “trilogia de tártaros – novilhos, salmão e atum”, cada um com seu acompanhamento e a demostrar que a par da tradição estamos também perante uma cozinha tecnicamente apetrechada. Mais uma vez, a qualidade imaculada dos ingredientes, como a intensidade e aroma o mel que se envolvia com pimentos e malaguetas no molho que acompanhava o novilho.

Além da sola de legumes, pois claro, “salada de rosbife de novilho com agriões”, “Portobello recheado com espinafres em crosta de broa”, “gambão flamejado com vinho verde e ananás caramelizado” e “estaladiço de mozarella com geleia de tomate e manjerição” completam as propostas entradeiras. Todas, pelo que se viu, em elegante e cuidado empratamento e em doses avantajadas e capazes de só por si compor uma refeição.

Para lá do arrebatador bacalhau e migas de samos, no que respeita à oferta de peixes provou-se também o “Supremo de robalo com arroz caldoso e tomate seco”. Supremo, de verdade, quer pela imaculada preparação naco do pescado – fresco, sumarento e saboroso -, quer pelo arroz caldoso com o sabor marcado do tomate doce e ácido. Belo prato mais uma vez!

PÚBLICO -
Paulo Pimenta
PÚBLICO -
Paulo Pimenta
PÚBLICO -
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta

Prometedor é também o “Polvo crocante acompanhado de Brás de brócolos e farinheira de Seia”, assim como o “filete dourado de pescada com salada russa de camarão”, ou ainda o “Arroz caldoso de peixe e lagosta aromatizado com coentros” que completam as propostas piscícolas.

Era sábado e dai a felicidade de poder saborear o “Cabrito assado no forno, com batata assada e grelos salteados”. Aqui não há empratamentos, como manda a tradição. O serviço compõe o prato: costelinha, perna, cachaço e vai repondo à medida da vontade do cliente. Crocante, aromático e untuoso, gelos macios a ácidos, batatinhas redondas com gordura brilhante e salpicadas de pimentão a compor o quadro de gulosa felicidade. Com mais um pouco de gordura/humidade no vistoso arroz de açafrão, a perfeição aí estava. Há, no entanto, quem diga que pedir tudo também é pecado.

Debicou-se ainda um pouco da “Barriga de leitão a baixa temperatura com brandade de feijão-verde e butelo”, um exercício culinário e risco – que mostra a segurança e confiança da cozinha – com crocância e da pele e barrica do reco a remeter para a tipicidade da Bairrada. Nada mal!

A carta oferece ainda “Carré de borrego de leite em tiborna de abóbora moranga assada”, “Risoto de pato com cebolinho”, “Posta de vazia charolesa grelhada com arroz de míscaros” e o “taco de vitela e puré de azeite de trufa”.

Entre as sobremesas, é igualmente visível a oferta das receitas e produtos típicos e tradicionais. Doces conventuais de Amarante, selecção de queijos nacionais, um duo cremoso de alperce e cereja da quinta, ou o saboroso e competente toucinho-do-céu com carpaccio de pêra bêbada e gelado de vinho do Porto que se saboreou. Mais uma vez em dose de tendência familiar.

A conclusão é, pois, de que a uma cozinha com técnica competência ao serviço dos produtos e receitas tradicionais, o Monverde associa também a tradição das doses fartas e saborosas. Tudo num saudável e virtuoso equilíbrio com o ambiente requintado e serviço cuidado.

Numa casa de vinhos, destaque para qualidade e abrangência da carta. É claro que inclui todo o portefólio da Quinta da Lixa, mas é notável a oferta de vinhos de todas as regiões do país, do Algarve a Trás-os-Montes, passando por Madeira e Açores. Praticamente todas as referências de qualidade do pais, abrangendo centenas de produtores e com evidente esforço de preços equilibrados. Louvável e raro.