Marcelo estende prazo para decidir recandidatura. O tabu está de volta?

Depois de sempre ter afirmado que anunciaria a sua decisão em Setembro de 2020, e mais recentemente ter antecipado para o próximo Verão, agora o Presidente da República admite só decidir em Outubro do próximo ano se concorre a um segundo mandato.

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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Marcelo Rebelo de Sousa sempre apontou Setembro de 2020 como a altura apropriada para anunciar se se recandidata a um segundo mandato presidencial. Esta semana, porém, fez uma discreta, mas também significativa, extensão desse prazo para Outubro do próximo ano. Isto depois de, no início deste ano, ter feito declarações que apontavam para uma recandidatura quase certa e antecipar o seu anúncio para o próximo Verão. Ainda que com subtilezas, parece agora relançar o tabu da recandidatura.

“Como sabem, as eleições presidenciais são só em Janeiro de 2021. Antes do final de Setembro ou Outubro do ano que vem haverá novidades”, disse nesta quarta-feira aos jornalistas à saída do lançamento do livro Uma campanha americana: Humberto Delgado e as Presidenciais de 1958, da jornalista da TVI Joana Reis, editado pela Tinta-da-China, no Museu da Presidência da República.

Marcelo aproveitou a presença da comunicação social para explicar que vai manter-se distante da vida política até às eleições legislativas, mas deixando claro que está “atentíssimo” à campanha “exaustiva”. “Para não haver sobreposições nem interferências, há de facto uma agenda reduzida ao mínimo”, afirmou, acrescentando que só vai manter os compromissos internacionais (Assembleia Geral das Nações Unidas) e as cerimónias militares já “apalavradas”.  

Quando questionado sobre quanto tempo precisava para lançar a recandidatura – já que Humberto Delgado montou a sua num mês -, o Presidente responde então com a possibilidade de adiar a sua decisão para Outubro de 2020. Ainda em Junho, na Costa do Marfim, afirmava que a decisão seria tomada no Verão do próximo ano.

O que pode ter vários significados. O primeiro e mais óbvio é que Marcelo não tem pressa nenhuma em anunciar a sua decisão. E ao mesmo tempo, quer dar a entender que a possibilidade de se recandidatar é menor do que se pensa e que aquilo que ele próprio quase deu por adquirido no Panamá, ou na Web Summit do ano passado, pode ainda não ser certo. E assim, vai alimentando um tabu que lhe permite ter uma porta entreaberta para sair de cena face a alguma situação adversa. “Há tantas coisas que os comentadores não sabem… Daqui a um ano falamos”, afirmou a 1 de Setembro na Festa do Livro em Belém, quando questionado sobre o assunto.

Outra razão possível é não querer aparecer como candidato em cimeiras internacionais de 2020, como a Ibero-Americana ou o Grupo de Arraiolos, que vem a Portugal comemorar o 20º aniversário, entre Setembro e Outubro. Mas a razão mais plausível será mesmo o quadro político que ficar definido nas próximas legislativas e o eventual aparecimento de outros candidatos, sobretudo da área do PS.

Apesar de alguns socialistas já terem admitido o apoio a uma recandidatura de Marcelo, se as circunstâncias forem idênticas às actuais, António Costa tem sido muito mais prudente. “Acho muito extemporâneo”, afirmou o líder do PS em Agosto, em entrevista ao Expresso, conjecturando: “Primeiro porque não sabemos quem são os candidatos, não sabemos qual é o quadro político que iremos ter... Iremos ter uma maioria clara na AR, seja do PS ou de um conjunto de forças políticas, em que é importante que o Presidente seja um factor de reequilíbrio, como aconteceu nesta legislatura? Ou temos um Governo frágil, dependente de jogos parlamentares e em que o papel do Presidente será distinto? É preciso também saber qual é a ideia do Presidente sobre o seu segundo mandato, visto que a história nos tem ensinado que a regra é que os segundos mandatos costumam ser particularmente adversos para os governos em funções...”.

As premissas políticas de Costa não serão muito diferentes das de Marcelo, ainda que as conclusões que tirem sejam diferentes, se não opostas. Desde logo em relação aos candidatos que possam surgir até lá, pois as presidenciais são eleições unipessoais, podendo surgir candidaturas por iniciativa própria, à margem ou até à revelia dos partidos – como foi o caso da própria candidatura do actual inquilino de Belém. Isso poderá condicionar o apoio, ou pelo menos a condescendência, em relação à recandidatura de Marcelo.

As presidenciais deverão ser a 24 de Janeiro de 2021 e têm de ser convocadas até 60 dias antes. As candidaturas têm de ser formalizadas junto do Tribunal Constitucional até 30 dias antes da data do sufrágio. Por mais que queira alimentar o tabu e adiar a decisão, Marcelo já não tem muito mais por onde estender esse prazo.