Opinião

A morte da adepta de futebol – a iraniana Sahar Khodayari

Em Teerão, a jovem Sahar Khodayari, que se imolou pelo fogo, teria visto a sua pena de prisão retirada se deixasse de ir aos estádios. Porém, ela entendeu manter a sua vontade de ir ver futebol.

Sahar Khodayari morreu no dia 10 de setembro em Teerão, no Irão. Era adepta de um clube de futebol iraniano, o Esteghlal. Em março do corrente ano ela foi ao estádio ver o seu clube do coração. O que lhe importava era poder ver o seu clube jogar, o que os seus colegas homens da licenciatura em Ciências de Computação podiam. Só que ela vivia num país onde as mulheres não podem entrar num estádio de futebol porque os jogadores têm parte das pernas ao léu. Para os aiatolas, os homens com parte das pernas ao léu são um perigo para as mulheres iranianas que vão ver um jogo de futebol. Tal como para os religiosos sunitas do país vizinho, a Arábia Saudita.

Em Portugal e no resto do mundo que vive sob pecado, as mulheres que vão ver jogos de futebol reparam nas pernas dos jogadores no sentido de averiguarem se são capazes de ultrapassar em fintas, em passes e desmarcações os adversários. Para os aiatolas, devido ao que se passa na sua cabeça, as mulheres apreciam as partes das pernas nuas, o que o procurador-geral Jaffar Montazeri considera encaminhar para o pecado por estarem seminus.

Na cabeça dos dignitários religiosos, ir a um estádio de futebol para ver as pernas dos jogadores é algo que apresenta uma gravidade com enorme relevo criminal. Eventualmente, as pernas dos jogadores de futebol, se forem vistas por mulheres, o caso muda de figura porque se os jogadores souberem que há mulheres a verem as suas pernas poderão perder a atenção, o que prejudica a missão de cada um deles.

Os grandes aiatolas, atentíssimos ao desempenho dos jogadores e à competição, jamais aceitariam que qualquer mulher, com o seu enorme poder diabólico, pudesse ser assinalada no estádio por jogadores com maior visão e contribuir daquela maneira para distrações que pudessem custar três pontos aos clubes das várias divisões iranianas.

Em defesa dos clubes, os dirigentes religiosos daquele país fizeram publicar uma fatwa (lei religiosa) que interdita a presença feminina a fim de assegurar o bom desempenho dos jogadores e o descanso dos namorados e maridos e a irritação de Satã.

Se assim não fosse, podia acontecer que dirigentes de certas equipas enviassem várias adeptas para distraírem os jogadores das equipas adversárias, e assim desvirtuariam a verdade desportiva, pois o VAR não opera nestes casos.

Claro que tudo isto se passa na cabeça de umas tantas centenas de homens de turbante na cabeça, o que lhes impede, provavelmente, de ver a realidade tal como ela é devido ao aperto dos panos.

Há mais casos parecidos. Um em Washington falava diretamente da sala oval com Deus, outro do Rio de Janeiro foi batizar-se ao rio Jordão com meia dúzia de evangélicos, outro ainda veio de Budapeste para o Santuário de Fátima defender a cristandade das várias ameaças... mesmo em Fátima, onde tudo é seguro.

Assim vai o mundo. Em Teerão, a jovem Sahar Khodayari, que se imolou pelo fogo, teria visto a sua pena de prisão retirada se deixasse de ir aos estádios. Porém, ela entendeu manter a sua vontade de ir ver futebol. Era fervorosa do Esteghlal.

A sua saúde mental, que segundo relatos do jornal Guardian não era a melhor, agravou-se com a condenação a seis meses de cadeia. Os aiatolas devem ter visto nesse agravamento um sinal divino, a razão para a impedirem de ir aos estádios e manterem a decisão. Face à imolação, eles terão pensado nas chamas do inferno…

Em sentido contrário, o Presidente Hassan Rouhani entende que as mulheres podem ir aos estádios e é homem.

O problema são estes representantes de Deus na terra. Veem o que os outros não veem. Onde umas veem habilidades, eles veem pecado. Talvez os seus próprios pecados lhes tenham toldado a mente e a vista.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico