Análise

Tucídides e a guerra de transição de poder EUA-China

A guerra comercial Estados Unidos-China inscreve-se assim na atual transição de poder no sistema internacional. Já ninguém tem dúvidas de que estamos a assistir ao declínio relativo da potência dominante (EUA) e à ascensão das “potências de segunda ordem” (China, Rússia e, eventualmente, Índia).

Graham Allison, professor na Universidade de Harvard, publicou um muito interessante artigo na revista Foreign Policy, intitulando-o sugestivamente de A armadilha de Tucídides. Inspirando-se na famosa obra Guerra do Peloponeso, escreveu: “À medida que a China desafia a predominância da América, mal-entendidos sobre as ações e intenções de um lado e do outro podem levá-los a uma armadilha mortal identificada pela primeira vez pelo historiador grego Tucídides. Como ele explicou: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável”. E Allison acrescentou: “Nos últimos 500 anos, houve 16 casos em que uma potência emergente ameaçou superar uma potência dominante. Doze deles terminaram em guerra”.

Ouvimos falar todos os dias da guerra comercial EUA-China. Ela existe e é só por si suficientemente grave para merecer a nossa atenção. Porém, o assunto é ainda mais sério. Em rigor, estamos perante a versão contemporânea das clássicas guerras de transição de poder no sistema internacional. No passado, estas eram resolvidas pelo confronto militar direto entre as grandes potências. Atualmente, devido ao facto de todos os Estados mais poderosos possuírem armas nucleares, elas assumem sobretudo (mas não exclusivamente) a forma de guerras comerciais, destinadas a enfraquecer o poder do adversário pela via económica.

É exatamente essa estratégia que está a ser seguida pela administração Trump. Desde há mais de um ano que o governo norte-americano tem elevado as taxas alfandegárias aplicadas a uma grande variedade de produtos chineses. Só no corrente mês, entraram em vigor nos Estados Unidos novas taxas de 15% sobre cerca de 300 mil milhões de dólares de importações oriundas da China. E o presidente já anunciou que em outubro vai elevar as taxas de 25% para 30% sobre 250 mil milhões de dólares.

Pode não se gostar e é justo temer pelas consequências destas decisões na economia mundial. Porém, não só Donald Trump não está a inventar nada de novo, como a questão essencial aqui não é económica e sim a distribuição de poder no sistema internacional. Para não ir mais longe, a economia desempenhou um papel muito importante no plano da administração Reagan para derrubar a União Soviética. E qual foi umas das modalidades escolhidas para esse efeito? O aprofundamento da reversão da chamada normalização das relações comerciais EUA-URSS. Ronald Reagan não se ficou por aqui, mas o comércio teve um papel relevante no fim da bipolaridade.

A guerra comercial Estados Unidos-China inscreve-se assim na atual transição de poder no sistema internacional. Já ninguém tem dúvidas de que estamos a assistir ao declínio relativo da potência dominante (EUA) e à ascensão das “potências de segunda ordem” (China, Rússia e, eventualmente, Índia). Também há praticamente um consenso quanto ao facto de o mundo já não ser unipolar, mesmo que ainda não seja multipolar. Finalmente, há cada vez mais autores convencidos de que isso terá como efeito o fim da atual ordem internacional liberal, um luxo só possível devido à existência da unipolaridade. 

Sabemos que estes processos de transição de poder são longos no tempo e de resultado incerto. Logo, independentemente de irmos assistir a momentos de desanuviamento, negociação e até alguns acordos, a guerra comercial veio para ficar até que um dos lados a vença. Mais. É ingénuo pensar que é impossível acontecer um conflito militar clássico entre grandes potências nos dias de hoje. O melhor que podemos dizer é que ele é muito menos provável por ser muito mais irracional e que há maneiras de diminuir o risco de tal acontecer. 

A chave para evitar uma “guerra total” está na ordem internacional que vier a ser construída sob os escombros da atual. E aqui há duas grandes hipóteses: ou os norte-americanos são bem-sucedidos, conseguem inverter a ascensão chinesa, a América continua a ser a potência dominante e usa a sua enorme superioridade de poder para regressar a uma ordem hegemónica (como a que existiu desde o fim da Guerra Fria até recentemente); ou os Estados ascendentes, como a China, mas também a Rússia e a Índia, ascendem até se tornarem grandes potências mundiais e daí resulta uma ordem de equilíbrio de poder.   

Na linha da opinião maioritária na comunidade académica das relações internacionais, defendo que a transição de poder culminará num novo sistema multipolar e numa nova ordem de equilíbrio de poder. Neste caso, há também duas hipóteses: ou uma ordem internacional do tipo Vestefália, a que podemos chamar de “equilíbrio de poder automático”; ou uma ordem internacional do tipo Viena, que podemos designar de “equilíbrio de poder de concerto entre grandes potências”.

A história (e a teoria) demonstra que, num sistema internacional multipolar, uma ordem de concerto entre grandes potências é mais estável, pacífica e duradoura. Ela parece ser neste momento a melhor maneira, se não a única, de evitar “A armadilha de Tucídides”.

Professor Associado da Universidade Nova/ Investigador Integrado do IPRI