Draghi diz que “já é tempo” de os Estados começarem a ajudar

BCE baixou juros e voltou a comprar dívida, mas o presidente do banco central diz que não chega: é preciso os governos começarem a ajudar com os seus orçamentos.

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LUSA/RONALD WITTEK

No dia em que apresentou mais um pacote de medidas para tentar estimular uma economia da zona euro em risco de recessão, o presidente do Banco Central Europeu (BCE) assumiu as dificuldades crescentes da política monetária para enfrentar sozinha a situação, reforçando o tom do apelo feito aos governos para agirem. “Já é tempo de a política orçamental tomar conta da situação”, disse.

Na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio das novas medidas de estímulo por parte do BCE – que incluem uma nova descida das taxas de juro e o reinício das compras de dívida pública por parte do banco central – Mario Draghi repetiu por diversas vezes que é tempo de os governos, com políticas orçamentais mais expansionistas, colaborem com o BCE na tarefa de reduzir os riscos de recessão na economia. E revelou mesmo que esta foi a única questão em que se registou uma completa unanimidade entre os membros do conselho de governadores do BCE que participaram na reunião desta quinta-feira.

“O crescimento que aconteceu nos últimos seis/sete anos na economia da zona euro foi praticamente todo justificado pelo que foi feito pela política monetária. Já é tempo de a política orçamental tomar conta da situação”, lamentou o presidente do BCE, naquele que foi o apelo mais forte à acção dos governos por si realizado durante o seu mandato, que acaba no final do próximo mês de Outubro.

Draghi distinguiu o que deve ser feito pelos países de acordo com a sua situação orçamental presente. No caso dos Estados com espaço de manobra orçamental, estes “devem agir de uma forma efectiva e atempada”, disse. Ao passo que relativamente aos países com uma dívida pública ainda muito elevada, o líder do BCE recomendou “prudência, para que seja possível os estabilizadores automáticos funcionarem”.

O que isto significa é que, para países como a Alemanha e a Holanda, Draghi pede o lançamento de mais investimento e despesa pública rapidamente. Ao passo que para países como a Itália e Portugal, o equilíbrio orçamental deve ser mantido, deixando apenas que, em caso de recessão, se permita um aumento das despesas com subsídio de desemprego e uma redução das receitas fiscais.

A expectativa de um contributo positivo vem principalmente da Alemanha, que está em risco de entrar em recessão técnica e onde o ministro das Finanças garantiu recentemente que as finanças públicas estão prontas para injectar dinheiro na economia. “Se a política orçamental já tivesse agido, o impacto das nossas medidas seria muito maior”, concluiu Mario Draghi nas suas respostas à imprensa.

Este tipo de declarações revela a preocupação dos próprios responsáveis do BCE de que as suas medidas de estímulo, esta quinta-feira reforçadas, possam estar a perder a sua eficácia, num cenário em que as taxas de juro já estão a níveis negativos.

É também isso que explica que, em relação às medidas agora adoptadas não tenha havido, segundo Draghi, consenso, mas apenas “uma maioria suficientemente alargada para que não fosse preciso recorrer a uma votação”.

Mario Draghi, que irá ser substituído em Novembro por Christine Lagarde, disse que nos últimos meses, “os argumentos para agir tornaram-se mais fortes”, salientando a deterioração da situação da economia, o aumento dos riscos relacionados com uma guerra comercial e a redução das expectativas de inflação.

“Ainda pensamos que a probabilidade de uma recessão na zona euro é pequena, mas a verdade é que subiu”, disse, afirmando ainda que “a expectativa de inflação está a ancorar-se a níveis entre 0% e 1,5%, o que não é o nosso objectivo”. “É por isso que decidimos agir já”, explicou.

Questionado relativamente às divergências dentro do conselho de governadores, que foram óbvias durante o último mês especialmente no que diz respeito ao regresso das compras de dívida, Mario Draghi destacou que houve um “acordo em relação à necessidade de agir”. “As diferenças foram em relação à severidade da deterioração da conjuntura, havendo pessoas que defenderam que era melhor esperar para ver”.

Em relação a Donald Trump, que se voltou a queixar que a decisão do BCE faz com que o dólar fique demasiado forte face ao euro, prejudicando as empresas norte-americanas, o presidente do BCE respondeu apenas com uma frase. “Nós temos um mandato, que é a estabilidade de preços, e não temos um objectivo para a taxa de câmbio”.