Microplásticos dificultam o desenvolvimento de minhocas

Verificou-se que os microplásticos provocam perda de peso nas minhocas da espécie Aporrectodea rosea.

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As minhocas ajudam a manter o solo saudável Paulo Ricca/Arquivo

O que acontece às minhocas quando ingerem microplásticos? De acordo com um artigo científico publicado esta quinta-feira na revista Environmental Science & Technology, os microplásticos dificultam o desenvolvimento de certas minhocas e fazem com que estas percam peso. Este é o primeiro estudo a medir os efeitos das milimétricas partículas de plástico em minhocas endogénicas, que obtém os seus nutrientes na superfície do solo, segundo os autores.

A contaminação ambiental dos microplásticos é agora considerada uma ameaça emergente para a biodiversidade e o funcionamento dos ecossistemas”, começam por escrever os autores no artigo. Nestas considerações iniciais, realça-se ainda que as terras de uso agrícola são conhecidas por serem um “escoadouro de microplásticos”, mas que os seus impactos ainda são pouco conhecidos. De acordo com o artigo, estima-se que as terras agrícolas europeias recebem entre 63 mil e 430 mil toneladas de microplásticos por ano. Há estudos que apontam que estas terras terão entre 700 e 4000 partículas de plástico por cada quilo de solo.

Para saber qual era o efeito dos microplásticos – que podem ir de poucos micrómetros (cada micrómetro equivale à milésima parte do milímetro) até aos cinco milímetros – no solo, uma equipa de cientistas da Universidade Ruskin da Anglia (Reino Unido) fez diferentes experiências com azevém da espécie Lolium perenne e minhocas da espécie Aporrectodea rosea, que são frequentes nos ecossistemas com vegetação rasteira.

Desta forma, analisou-se o efeito do ácido poliláctico biodegradável (PLA), do polietileno de alta densidade (HDPE) – usado na produção de sacos e garrafas de plástico – e dos microplásticos de fibras da roupa, nomeadamente em acrílico e nylon, em minhocas recolhidas de uma área com vegetação em Cambridge.

Verificou-se então que, depois de 30 dias na presença de HDPE, essas minhocas perderam cerca de 3,1% do seu peso, segundo um comunicado da Universidade Ruskin. Já as minhocas que não tinha estado na presença de HDPE aumentaram em 5,1% do seu peso.

“No geral, as minhocas perderam peso quando estavam na presença de microplásticos e aumentaram significativamente o seu peso quando estavam num solo que não tinha microplásticos”, assinala no comunicado Bas Boots, biólogo da Universidade Ruskin e um dos autores do trabalho.

Contudo, o biólogo assinala que ainda se desconhecem as razões específicas para esta perda de peso. “Pode acontecer porque os microplásticos irritam o seu tracto gastrointestinal”, diz ao PÚBLICO. Caso essa hipótese se confirme, isso pode limitar a absorção de nutrientes e diminuir a capacidade de desenvolvimento das minhocas. Este processo já foi observado nos poliquetas tubícolas da espécie Arenicola marina. “Precisamos de investigar mais para desvendar o mecanismo exacto que faz com as minhocas não consigam ganhar peso.”

As engenheiras do ecossistema

E quais as consequências para o ecossistema onde as minhocas vivem? “As minhocas são ‘engenheiras do ecossistema’ e ajudam a manter o solo saudável. Ao ingerirem matéria orgânica letal, isso contribuirá para a disponibilidade de nutrientes”, considera Connor Russell, também da Universidade Ruskin da Anglia e autor do artigo. O cientista acrescenta ainda que, se a saúde das minhocas for afectada, poderá haver consequências no crescimento de plantas no ecossistema onde se encontram, por exemplo. Afinal, ao escavar o solo, as minhocas melhoram a sua estrutura do solo e ajudam na drenagem e na prevenção da erosão.

Antes deste trabalho, já se sabia que as minhocas da espécie Lumbricus terrestris ingeriam microplásticos e que, por isso, reduziam a sua taxa de crescimento depois de 60 dias expostas a microplásticos de polietileno.

Quanto às análises ao solo e ao azevém, os cientistas concluíram que a presença de HDPE pode contribuir para a diminuição do pH no solo. Já o PLA pode levar à redução da altura do azevém, assim como à diminuição da germinação das suas sementes. Também as microfibras podem ter o mesmo efeito nas sementes da Lolium perenne.

“[Para minimizar estes impactos], a abordagem mais fácil é evitar os plásticos, mas hoje em dia a sociedade depende muito deles e será difícil”, considera Bas Boots. Por isso, e já que o seu trabalho se centra nas terras de uso agrícola, o biólogo aconselha que se removam os detritos de plástico desses solos.