O último quadro de Botticelli em colecção privada à venda em Londres

O Retrato de Michele Marullo Tarcaniota vai para a Trinity Fine Art no mês de Outubro, mas a lei do Estado espanhol obriga a que a obra permaneça em Espanha.

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"Retrato de Michele Marullo Tarcaniota" (1491), de Botticelli Trinity Fine Art

O Retrato de Michele Marullo Tarcaniota (1491) vai ser posto à venda pela leiloeira inglesa Trinity Fine Art na feira Frieze Masters, que decorrerá em Londres de 3 a 6 de Outubro. Esta é a última obra do pintor florentino Sandro Botticelli (1445-1510) que ainda pertence a uma colecção privada. A pintura — que retrata o poeta grego Humanista e soldado da Renascença (1453-1500) Michele Marullo — é considerada uma peça-chave da retratística da Escola Florentina, pela notável expressão tanto elegante como tenebrosa reminiscente de ambas as faculdades pelas quais é conhecido.

A peça foi adquirida em 1929 pelo político catalão Francesc Cambó, que se destacou nas eleições de 1907 à frente do movimento Solidariedade Catalã, tornando-se o sucessor do nacionalista Enric Prat de la Riba. Cambó fez fortuna, e agregou duas vintenas de obras, das quais cinco atribuídas a Botticelli. O político tornou-se também num dos mais importantes coleccionadores de arte e doadores culturais na história de Espanha e a sua colecção mereceu uma grande exposição entre 1990 e 1991 no Museu de Arte da Catalunha (MNAC) e no Museu do Prado, as duas instituições que dividem entre si a quase totalidade das obras da colecção Cambó.

“Cambó sentia verdadeira veneração pelas obras, mais do que a mera fruição visual”, explica o historiador de arte catedrático da Universidade de Barcelona, Joan Sureda i Pons, no catálogo da exposição da colecção Cambó, citado pelo El País. Orgulhosamente afirmava que com mais uma aquisição a sua colecção se equipararia à dos Uffizi de Florença, como se pode ler no mesmo catálogo. No entanto, o retrato de Marullo por Botticelli era pelo próprio Cambó considerado a “pérola” da colecção. Foi, por isso, a única obra que não doou a qualquer museu e deixou à sua única filha, que por sua vez deixou nas mãos dos seus 14 filhos.

O quadro esteve temporariamente acolhido no Prado entre 2004 e 2017 ao abrigo do governo espanhol, que estabeleceu uma garantia de Estado de 60 milhões de euros em caso de estragos ou roubo, valor com que a obra poderá agora entrar no mercado. No entanto, a obra foi considerada um Bem de Interesse Cultural em 1988, categoria que impede que o quadro saia de Espanha sem a devida permissão da Junta de Qualificação, Avaliação e Exportação de Bens do Património Histórico Espanhol... Um Botticelli que estará para sempre vinculado a Espanha e que mesmo que venha a ser comprado por coleccionadores estrangeiros não pode sair do país — isto é, permanentemente ou sem a autorização devida.

Porta-voz do ministério da Cultura espanhol disse ao El País que a pintura não pode ser exportada, nem oferecida a instituições estrangeiras, e que os donos da peça deverão notificar o Estado se a peça entrar no mercado, o que ainda não se sucedeu.