Julgamento do homicídio de triatleta começa com contradições da viúva Rosa Grilo

Arguida teve também dificuldades em explicar como é que “desconfiou” de alegadas encomendas que o marido receberia com diamantes e por que é que decidiu levar para casa a pistola de António Joaquim, sem conhecimento deste, admitindo ao mesmo tempo que não sabe manejar armas.

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ANTÓNIO PEDRO SANTOS

O julgamento do caso do homicídio do triatleta Luís Grilo começou nesta terça-feira no Tribunal de Loures, sob apertadas medidas de segurança. A sessão ficou marcada pelo depoimento da viúva Rosa Grilo e pela intervenção inicial do Ministério Público e dos dois advogados de defesa. Rosa Grilo manteve as declarações do primeiro interrogatório feito, há um ano, perante a juíza de Instrução de Vila Franca de Xira, afirmando que foram três angolanos a matar o marido por causa de negócios de diamantes.

A inquirição da juíza Ana Clara Baptista suscitou, todavia, mais algumas contradições no relato de Rosa Grilo, ao ponto de a presidente do colectivo de juízes do Tribunal de Loures ter chegado a observar que só queria perceber o que a arguida dizia “com alguma sequência lógica”. “Pela forma como a senhora está a responder, parece que não está segura do que diz”, disse a magistrada.

Rosa Grilo, de 44 anos, começou por afirmar que pretendia manter tudo o que disse no primeiro interrogatório. Ana Clara Baptista referiu que, nesse sentido, iria tentar sobretudo clarificar algumas situações que no seu entender não terão ficado bem esclarecidas no depoimento prestado pelos dois arguidos após a sua detenção, em Setembro de 2018.

Questionada pela juíza, Rosa Grilo teve dificuldades em explicar por que é que dias antes da morte do marido comprou bilhetes para o Festival de Vilar de Mouros, confessando depois que pretendia assistir aos concertos na companhia do também arguido António Joaquim, amante confesso da viúva. Rosa ainda observou que iria tentar arranjar uma desculpa para justificar a saída perante o marido e referiu que, se não conseguisse, ofereceria simplesmente os bilhetes a António Joaquim.

Encomendas de diamantes

Depois, a arguida teve também dificuldades em explicar como é que “desconfiou” de alegadas encomendas que o marido receberia com diamantes e por que é que decidiu levar para casa a pistola de António Joaquim, sem conhecimento deste, admitindo ao mesmo tempo que não sabe manejar armas.

A forma como terá deixado o filho sozinho em casa com um estranho (um dos alegados angolanos) durante quatro horas e as viagens que fez a Alverca e ao concelho de Avis no dia em que os suspeitos lhe “invadiram” a casa das Cachoeiras, freguesia rural do concelho de Vila Franca de Xira, também geraram algumas hesitações no depoimento da arguida.

Na abertura da sessão, o procurador explicou que, tendo também em conta que o caso é julgado com tribunal de júri (quatro cidadãos escolhidos para apoiar o colectivo de juízes na sua decisão), iria usar a prerrogativa prevista no Código de Processo Penal de se pronunciar sobre o caso na abertura do julgamento. “Ao Ministério Público incumbe sustentar a acusação, mas também é verdade que, segundo a Constituição, o objectivo principal do Ministério Público é descobrir a verdade”. O magistrado reconheceu que neste caso em concreto “ninguém sabe e ninguém viu e, por isso, não existe uma prova factual concreta”. No entanto, vincou, que existem “93 testemunhas para ouvir neste processo”. O Ministério Público admitiu algumas “imprecisões” na acusação, mas assegurou que vai apresentar provas dos factos imputados aos arguidos.

Já Tânia Reis, advogada de Rosa Grilo, observou que este caso “gerou muitas notícias que não correspondem à verdade” e que alguns dos actos da sua cliente foram provocados pelas circunstâncias (alegadas ameaças dos angolanos). “A acusação não bate certo e tem uma versão dos factos completamente deturpada”, referiu a causídica, prometendo apresentar testemunhas que provem outro relato dos factos.

Ricardo Serrano Vieira, advogado de António Joaquim, funcionário judicial de 43 anos, considerou que alguns dos métodos de recolha de provas adoptados pela Polícia Judiciária não foram regulares. “A missão da Polícia Judiciária é descobrir a verdade e não foi isso que aconteceu”, afiançou. O julgamento prossegue no dia 17 ainda com o depoimento de Rosa Grilo.