Keith Haring sai à rua (e entra no centro comercial) em Cascais

A obra de Keith Haring volta a Portugal para uma exposição individual a inaugurar esta terça-feira. Entre a arte, o activismo e a moda fica no CascaiShopping até 10 de Novembro, com entrada gratuita.

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Keith Haring encontrou respaldo na independência da fervilhante comunidade artística nova-iorquina dos anos 70 e 80 DR

Entre a arte, o activismo e a moda, que esta terça-feira chega ao CascaiShopping, junta 17 peças de Keith Haring (1958-1990) em homenagem a este artista e activista das últimas décadas do século XX cuja linguagem gráfica se tornou praticamente um idioma universal (e que, em Portugal, foi alvo de uma grande exposição em 2004, na Culturgest). Seleccionadas a dedo por Astrid Sauer, as obras pretendem reconstituir a singular iconografia de Haring e abordar as questões fracturantes que dominaram a sua actividade nos anos 80, como “o regime de Reagan, o racismo, a violência, e a sida [que o vitimou]”, explicou a curadora ao PÚBLICO. 

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Em 1978, Keith Haring deixava para trás a escola profissional de artes da sua terra natal para mergulhar na fervilhante comunidade artística nova-iorquina. Ali, a arte estava disposta a desligar-se das instituições, das galerias e dos museus para ocupar a rua, o metropolitano e as discotecas, recorrendo a técnicas como o graffiti e a outros formatos gráficos e performativos inovadores. Inspirado pelos seus contemporâneos, Haring dedicou a sua carreira à criação de uma arte verdadeiramente pública, materializando impulsos juvenis em padrões caricaturais que davam primazia à linha, a sua inconfundível assinatura. A partir de 1982, o reconhecimento do seu trabalho projectou-o para as grandes galerias internacionais, dando início a uma fase áurea de criatividade artística à qual esta curadoria pretende dar especial ênfase.

O próprio espaço que as obras escolhidas agora ocupam quer evocar as ideias do artista: a exposição inspira-se na icónica Pop Shop, a primeira loja de artigos artísticos –​ considerada uma extensão do seu trabalho – que Keith Haring abriu em Manhattan no ano de 1986. “A Pop Shop, criticada como uma maneira de fazer mais dinheiro, é, pelo contrário, uma maneira de tornar as suas obras acessíveis a um maior número de pessoas”, sublinha Astrid Sauer, sublinhando que Keith Haring é o “pai do merchandising artístico”. Na linha das ideias de democratização que o artista promoveu ao longo da vida, Entre a arte, o activismo e a moda procurou espaços públicos, levando a arte à rua, ao encontro das pessoas. Além das 17 obras de Haring que até 10 de Novembro podem ser vistas gratuitamente no CascaiShopping, a estação de comboios de Cascais foi redecorada com imagens alusivas ao seu trabalho e uma carruagem intervencionada por AkaCorleone (Pedro Campiche), um artista devoto a Haring, irá circular por aquela linha. 

As relações do artista com o mundo da moda também constituem um dos eixos da exposição. Keith Haring colaborou com ícones como Madonna, Grace Jones ou Vivienne Westwood, e influenciou marcas globais como a Coach e a Lacoste. Para explicitar esta ligação, estarão expostas algumas criações de designers inspirados nos simbólicos padrões e bonecos de Haring. A peça mais notável é a réplica do vestuário que Keith Haring fez para Madonna, que a usou numa performance a propósito do aniversário do artista em 1984. Dino Alves, um dos mais aclamados criadores de moda nacionais, é o porta-voz da secção de moda da exposição.

A inauguração de Entre a arte, o activismo e a moda terá ainda um evento inédito de live body painting com a modelo Sharam Diniz, uma homenagem a uma performance de Grace Jones, que em 1987 se deixou pintar por Keith Haring em Nova Iorque. Texto editado por Inês Nadais