Gaspar Barreira na inauguração da Esplanada das Partículas no CERN, em Setembro de 2018 DR

Um tributo a Gaspar Barreira, defensor da liberdade e do conhecimento

Físico e ex-preso político é homenageado esta quarta-feira na reitoria da Universidade de Lisboa.

O físico Gaspar Barreira, que morreu de cancro a 1 de Junho aos 79 anos, é homenageado esta quarta-feira, 11 de Setembro, a partir das 9h30 no salão nobre da reitoria da Universidade de Lisboa, pelos seus contributos para a física de partículas e a sociedade. Foi um dos principais promotores da adesão de Portugal em 1986 ao Laboratório Europeu de Física de partículas (CERN), ao lado de José Mariano Gago (1948-2015), e um opositor político durante a ditadura que o levou à prisão.

Ao longo de todo o dia, a homenagem a Gaspar Barreira começa pela parte da “física”, passa para a “tecnologia e indústria”, segue-se a “terapia de protões”, a “vida e visão de Gaspar” e o encerramento do ministro da Ciência, Manuel Heitor.

Nascido em Braga a 4 de Maio de 1940, Gaspar Barreira chegou aos 18 anos à capital para estudar física e matemática na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Recém-chegado a Lisboa, lutou contra a ditadura acabando por ser preso: esteve em Caxias e na Fortaleza de Peniche. No período mais longo, esteve preso entre 1966 e 1971. 

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Gaspar Barreira com o seu cão Quark DR

Domingos Abrantes e Alfredo Caldeira foram seus companheiros de resistência antes do 25 Abril – por isso, ambos marcarão presença no tributo a Gaspar Barreira. Após o 25 de Abril de 1974, Gaspar Barreira e Alfredo Caldeira trabalharam juntos no Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE. Também estará presente no tributo o almirante Martins Guerreiro, que fez parte do Conselho da Revolução, onde conheceu Gaspar Barreira em 1975, quando lho indicaram como a pessoa certa para trabalhar consigo.

“Apercebi-me então da grande capacidade, inteligência e cultura do Gaspar, que lhe permitiam abordar com profundidade e rigor assuntos de natureza muito diferente: sindical, política, económica, cientifica, cultural e social”, escreveu o almirante Martins Guerreiro na página de homenagem no site do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), fundado por Gaspar Barreira em 1986 juntamente com Mariano Gago e Armando Policarpo. “Era dotado de uma enorme sensibilidade humana; das muitas pessoas que conheci e com quem trabalhei ao longo da vida, foi provavelmente a pessoas mais completa, mais dotada e mais simples que encontrei. Um ser humano de excepção, deu tudo e nunca pediu nada para si.”

“Meia dúzia de gatos-pingados”

No início dos anos 70, Gaspar Barreira aprendeu electrónica como autodidacta na prisão. Pouco tempo depois, ainda nos anos 70, estava no Centro de Física Nuclear da Universidade de Lisboa – “onde ‘salvava’ os colegas com a sua capacidade de fazer as coisas funcionar, consertando equipamento ou montando módulos que não existiam, e desenvolvia projectos pioneiros de datação de moedas e artefactos antigos em colaboração com arqueólogos”, lê-se na página de homenagem.

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Gaspar Barreira numa colheita de cogumelos, uma das suas paixões gastronómicas, em 1992 perto do Cartaxo DR

Em 1980, foi para o Centro Internacional de Física Teórica, em Trieste (Itália), onde em pouco tempo se tornou director do Laboratório de Microprocessadores. “Poderia ter ficado por lá, prosseguindo uma carreira em rápida ascensão”, refere o texto de homenagem. Mas não: desafiado para regressar a Portugal – “há desafios a que nunca diria não” –, veio participar no processo de adesão de Portugal como Estado-membro ao CERN e na fundação do LIP, criado para explorar as oportunidades trazidas pela adesão do país a esse laboratório europeu.

Portugal tinha dois físicos de partículas doutorados – Mariano Gago (que trabalhou no CERN) e Armando Policarpo – e dois ou três físicos nucleares, ele incluído, disse Gaspar Barreira no Encontro Ciência 2017, em Lisboa. “Era meia dúzia de gatos-pingados.” O LIP de hoje é muito diferente do de há 30 anos, acrescentava: É um centro com cerca de 200 pessoas, mais de cem com doutoramento, que dividem a sua actividade pelo CERN e pelas chamadas astropartículas.” 

Portugal entrava então como país-membro do CERN em Janeiro de 1986, o LIP era criado em Maio desse ano e, nessa altura também, Mariano Gago tornou-se presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), hoje Fundação para a Ciência e Tecnologia. Gaspar Barreira, que veio criar a divisão de instrumentação do LIP e cedo os seus interesses se estenderam à computação, assumiu então a direcção do laboratório, como viria a acontecer por várias vezes.

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Hastear da bandeira de Portugal no CERN em Janeiro de 1986 após a adesão de Portugal ao laboratório europeu: da esquerda para a direita, Gaspar Barreira é o segundo; José Mariano Gago tem a filha bebé ao colo; e abrigados pelos chapéus-de-chuva coloridos ao centro estão Herwig Schopper (director-geral do CERN) e Eduardo Arantes e Oliveira (secretário de Estado da Ciência português) DR

Nesses primeiros anos no LIP, participou na experiência com o nome de código NA38 no Super-Sincrotrão de Protões (SPS, em inglês), acelerador de partículas do CERN a funcionar desde 1976. Depois, teve também um papel fundamental na entrada de Portugal num dos grandes detectores de partículas – o Delphi – de outro acelerador do CERN, o Colisor de Electrões-Positrões (LEP), que funcionou entre 1989 e 2000. Encerrou nesse ano para que, no seu túnel circular de 27 quilómetros a 100 metros de profundidade, se construísse o Grande Colisor de Hadrões (LHC), hoje o maior acelerador de partículas do mundo. Gaspar Barreira apoiou o LHC desde os primórdios (a sua construção foi aprovada em 1991 e começou a funcionar em 2010) e teve um papel decisivo na participação de empresas e grupos de investigação portugueses no LHC, realça o texto de homenagem. Era ainda um forte defensor da computação distribuída, tendo participado em vários projectos europeus.

No início do século XXI, envolveu-se profundamente na política científica – por exemplo, como representante de Portugal em várias organizações científicas internacionais e comités internacionais de ciência e política científica. Aliás, foi condecorado em 2006 com a Ordem do Infante D. Henrique pelo seu contributo para a internacionalização da ciência portuguesa. “Era um defensor convicto do CERN, da cooperação internacional e das infra-estruturas científicas de longo prazo”, sublinha-se ainda, acrescentando-se que foi co-coordenador de programas de formação avançada para jovens engenheiros portugueses no CERN, na Agência Espacial Europeia (ESA) e no Observatório Europeu do Sul (ESO). “O CERN representou o início da internacionalização da ciência em Portugal. Foi a primeira grande infra-estrutura de investigação científica a que Portugal aderiu. A partir daí, Portugal aderiu à ESA, ao ESO e a outras organizações internacionais”, lembrou Gaspar Barreira no Encontro Ciência 2017.

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Gaspar Barreira ao centro com Fabiola Gianotti, directora-geral do CERN, a 4 de Maio de 2016, no dia de anos do físico; acompanhavam-no ainda (a partir da esquerda) o físico Mário Pimenta, o ministro Manuel Heitor e o físico João Varela DR

Internacionalmente, foi por exemplo delegado de Portugal no conselho do CERN e, também, no conselho do SESAME – o primeiro acelerador de partículas internacional do Médio Oriente (com sede em Allan, perto de Amã, a capital da Jordânia) e que juntou países como Israel e Irão. Gaspar Barreira esteve na inauguração do SESAME em Maio de 2017 como representante de Portugal, um dos países observadores deste centro que tem como modelo o CERN, que tinha sido criado em 1954 unindo os países europeus depois da II Guerra Mundial. “É o lugar da ciência para a paz”, dizia ao PÚBLICO ao telefone de Allan na inauguração do acelerador, realçando o espírito vivido: “Esteve muito calor, mas foi uma grande festa!”

Últimos sonhos

Como ex-preso político, fez parte de um grupo consultivo nomeado em Janeiro de 2017 pelo Governo – depois do recuo na intenção de adaptar a Fortaleza de Peniche a uma pousada –, com a tarefa de apresentar uma proposta sobre o futuro do forte que foi prisão política entre 1934 e Abril de 1974.

Ao PÚBLICO, Gaspar Barreira lembrava então que os presos estavam proibidos de se aproximarem das janelas, que estas tinham vidros foscos, que só se ouviam as ondas do mar, as gaivotas e o som das traineiras. Que havia apenas cinco ou seis anos que tinha deixado de ter pesadelos em que continuava preso. “Não gostava que isto fosse uma coisa dos coitadinhos, um muro das lamentações. Claro que estiveram presas 2400 pessoas em Peniche, mas a repressão tinha mais aspectos do que a prisão e tortura. A situação da mulher, por exemplo, era extremamente gravosa”, dizia.

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E quando o Governo anunciou em Abril de 2017 que a Fortaleza de Peniche ia ser um museu nacional da resistência contra a ditadura, ficou surpreendido com a rapidez da decisão: “Era isto que nós esperávamos, conseguir reverter o programa de privatização de parte do espaço, mas não esperava uma resposta tão rápida, extrema e eloquente.”

Por cumprir está agora o seu último grande sonho – a criação em Portugal de um centro de terapia oncológica com protões, no Campus Tecnológico e Nuclear, perto de Sacavém. Era o co-coordenador, com o oncologista João Oliveira, presidente do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, de um grupo de trabalho criado pelo Governo em Outubro de 2017 para definir uma estratégia nacional para a instalação de uma unidade de terapia do cancro com protões. “Nele nos empenharemos”, garante Mário Pimenta, o actual presidente do LIP.