Há uma bolsa de 90 mil euros para apoiar actores em início e no final da carreira

A Fundação GDA e a Gedipe vão lançar o Programa Contratação+, com o objectivo de assegurar os direitos dos actores com menos de 30 anos ou mais de 60 – aqueles que têm maior dificuldade no acesso à profissão, tanto na televisão como no cinema.

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Carlos Vieira de Almeida
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“Esta proposta, tal como muitas outras da Fundação GDA [Gestão dos Direitos dos Artistas], vai melhorar as condições de trabalho dos actores em início e fim de carreira”, diz Catarina Salgueiro, actriz de 28 anos, acerca do novo Programa Contratação+, que visa apoiar a contratação de actores que começam ou estão no final da carreira. “Há muito tempo que nós sentíamos falta de uma plataforma que nos juntasse a realizadores e a produtores, sem termos de recorrer às tradicionais agências.”

“A composição dos elencos do audiovisual nos vários canais tende a favorecer os actores mais jovens”, explicou Carlos Vieira de Almeida, actor de 74 anos e membro da direcção desta fundação. “Há guiões que são escritos sem contemplar os actores mais velhos, que acabam por ser um pouco discriminados.”

A Fundação GDA, juntamente com a Gedipe (Gestão Colectiva de Direitos de Autor e de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais), vai investir 90 mil euros no apoio à contratação de actores profissionais com menores rendimentos para projectos de cinema e de televisão. Mário Carneiro, director-geral da fundação, explicou ao PÚBLICO que “o cinema e a televisão são fontes muito importantes de rendimentos desta classe profissional”, e que o objectivo desta iniciativa é “alargar o leque de pessoas que têm acesso ao trabalho”. “Este dinheiro é o resultado de um investimento da Fundação GDA e da Gedipe, duas sociedades de gestão de direitos que se associaram para promover este programa”.

O programa está aberto a actores profissionais com mais de 60 anos ou com menos de 30, que tenham concluído a sua formação académica na respectiva área, ou que tenham participado como profissionais remunerados em, pelo menos, três espectáculos de teatro ou em dois projectos de ficção audiovisual. Além da faixa etária, existem condicionantes de carácter social e económico, não podendo os artistas candidatos ter usufruído de um rendimento ilíquido superior a 20 mil euros no último ano, e não terem recebido nos 12 meses anteriores rendimentos de mais de 5 mil euros do cinema ou da televisão. O incentivo também não se aplica aos actores que fiquem com o papel de protagonistas nas obras candidatas aos apoios, independentemente da idade.

“Este apoio destina-se a pessoas que têm tido menos oportunidades”, esclarece Mário Carneiro. “Assim evitamos incluir pessoas que estão recorrentemente no cinema e na televisão, e criamos oportunidades para aquelas que não têm acesso tão facilmente nesta área e que tem uma maior fragilidade económica”, acrescenta o director da fundação.

Apesar da pequena dimensão do mercado audiovisual português e do método pré-estabelecido e tradicional com que tem funcionado nos últimos anos, o director-geral da fundação acredita que este programa pode alterar este estado de coisas. “Este mercado tem algumas vicissitudes, e a introdução de um programa deste tipo pode alterar o modo como as produtoras e os realizadores seleccionam actores para um filme, uma série ou uma novela”, nota. “Com este programa, e este incentivo, esperamos criar mecanismos que contrariem a situação mais tradicional em que as pessoas que tem um carisma popular e um conhecimento maior por parte do público são mais facilmente convidadas para desempenhar um papel”, diz Mário Carneiro.

Uma plataforma para combater as desigualdades

Catarina Salgueiro começou a fazer teatro em Sintra, aos 17 anos, no Teatro TapaFuros. Formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, e quando acabou o curso formou uma companhia, os Possessos. Mais recentemente, fez a sua segunda participação numa longa-metragem no filme A Herdadede Tiago Guedes, que esteve a concurso no Festival de Cinema de Veneza. A actriz acredita que esta plataforma pode quebrar esse ciclo vicioso onde a contratação de actores para produções audiovisuais é baseada na sua popularidade, em vez da sua “formação ou experiencia profissional”.

“Esta é uma plataforma isenta, imparcial e bastante interessante”, diz a actriz. “Além disso, assegura um apoio para o cachet dos actores, o que pode ajudar a combater a renumeração injusta, e muitas vezes precária, para actores no início de carreira”.

Apesar de Carlos Vieira de Almeida não poder beneficiar dos apoios, uma vez que faz parte dos quadros da Fundação GDA, e de ter algum receio sobre a forma como alguns actores mais experientes podem encarar este apoio  “não porque o programa seja mau, mas por acharem que não precisam uma ‘esmola’” , o experiente actor que desempenhou o papel do Agente Lino em Vila Faia, a primeira telenovela portuguesa, e este ano teve uma pequena participação no mais recente sucesso de bilheteiras do cinema português, Variações, espera que o programa possa contribuir “para uma realidade mais justa, e que possa ajudar a furar barreiras das produtoras, uma vez que elas também são beneficiadas com a contratação destes actores”.

Texto editado por Sérgio C. Andrade