Editorial

Conte livrou-nos do mal

A Giuseppe Conte se deve o facto de a Itália por pouco não se ter transformado na primeira democracia ocidental a cair nas mãos da extrema-direita, tornando-se uma espécie de nova Hungria.

O professor de Direito Privado de Florença que chegou de táxi, em Maio do ano passado, ao Palácio do Quirinal, para tomar posse como presidente do conselho de ministros da república italiana, já não é o desconhecido testa-de-ferro que Luigi Di Maio e Matteo Salvini cooptaram como denominador comum de um governo de coligação. Giuseppe Conte — Giuseppi na versão benigna de Trump no último G7 — também já não é a marioneta do Movimento 5 Estrelas e da Liga da qual Guy Verhofstadt escarneceu no plenário de Bruxelas. Conte ganhou vida própria. A ele se deve o facto de a Itália por pouco não se ter transformado na primeira democracia ocidental a cair nas mãos da extrema-direita, tornando-se uma espécie de nova Hungria.

Enlevado com os resultados das eleições europeias, com os índices de popularidade dentro e fora das redes sociais, Salvini ambicionou tomar conta da Itália como se fosse um Orbán ou um Putin. Mas o seu apetite pantagruélico ditou-lhe um involuntário suicídio político à beira-mar, no período de férias, de tronco nu e mojito na mão. Salvini acreditou que a modorra das férias o protegeria de qualquer solução de governo que ele próprio não conduzisse e acabou surpreendido pela “indecorosa” negociação entre o 5 Estrelas e o Partido Democrático (PD). O líder da Liga naufragou na sua própria soberba. Até quando não se sabe. Salvini pode estar moribundo, mas não o dêem como morto.

Após a demissão do Governo, no momento certo, Matteo Renzi, antigo primeiro-ministro do PD, teve a clareza de indicar um caminho ao seu Partido Democrata e de assim estabelecer um cordão sanitário em redor da Liga. Conte tirou partido das três tendências que, gradualmente, se formaram em redor do executivo: a de Salvini, a de Di Maio e a do próprio primeiro-ministro. E aproveitou a conjuntura política pós-eleições europeias para se autonomizar: o Vaticano estava atónito com a descarada utilização de crucifixos na campanha e com a política desumana para com imigrantes e refugiados, foram lançadas suspeitas de comissões pagas à Liga pela Rússia de Putin e a escolha de Ursula von der Leyen deu mais um empurrão à mudança de ciclo em Roma.

Conte conquistou a independência e respeito com um discurso de demissão, antes da votação de uma moção de censura que derrubou o Governo, no qual acusou Salvini de “oportunismo político”. Catorze meses depois, Conte passou de marioneta a maestro. Conte livrou-nos do mal.