Índia perdeu o contacto com o módulo lunar

Momentos antes de chegar à superfície da Lua, o módulo lunar da missão Chandrayaan-2 perdeu a comunicação com a Terra.

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Antena do centro de comnado da ISRO, em Bangalore (Índia), que comunica com o módulo do Chandrayaan-2 JAGADEESH NV/EPA,JAGADEESH NV/EPA
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Chandrayaan-2 DR

Parece que ainda não foi desta que a Índia se tornou o quarto país a pousar com sucesso na Lua. Tudo estava a correr bem esta sexta-feira à noite, mas a dois quilómetros da superfície da Lua a comunicação entre o módulo de aterragem e a Terra perdeu-se, de acordo com a Organização de Investigação Espacial da Índia (ISRO). Esperava-se que a Chandrayaan-2 fosse a primeira missão espacial a chegar e a explorar o pólo Sul do nosso satélite natural.

O ambiente no centro de controlo da ISRO, em Bengaluru (Índia), era de expectativa, mas também de ansiedade, porque a missão era complexa. A menos de 20 minutos da chegada da missão à superfície lunar, chegava também ao centro de controlo o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.

Tudo parecia estar a correr bem. Por isso, por vezes, batiam-se palmas na sala.

Os momentos mais tensos chegaram quando o módulo estava a cerca de dois quilómetros da superfície da Lua. Por mais de 30 minutos, houve silêncio na sala e todos os momentos foram, de facto, “aterradores”, como temia Kailasavadivoo Sivan, presidente da ISRO numa conferência de imprensa dias antes. Para fora, passava a sensação de que o contacto com o módulo tinha sido perdido.

A confirmação chegou depois pela voz do próprio Kailasavadivoo Sivan: a dois quilómetros da superfície da Lua a comunicação do módulo com a Terra “foi perdida”. “Os dados estão a ser analisados”, anunciou.

Pouco depois, Narendra Modi dirigiu-se à sala de comando e deixou uma mensagem aos cientistas: “Sejam corajosos. Há altos e baixos na vida… o país está orgulhoso de vocês.” Ainda falou com alguns estudantes que acompanhavam a descida do módulo à superfície lunar, mas acabou por deixar o centro do ISRO.

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No Centro de Controlo da ISRO, em Bangalore, Índia JAGADEESH NV/EPA

Percalços desde o lançamento

Quanto ao lançamento, a aventura da Chandrayaan-2 esteve cheia de percalços e atrasos. Acabou por ser lançada a 22 de Julho, mais de um ano depois do que estava previsto. E, na altura, a sua saída para o espaço ainda chegou a ser adiada uma semana devido a um problema técnico. Em Agosto começou a orbitar a Lua.

Depois de várias manobras, esta segunda-feira o módulo de aterragem – que se chama Vikram, em homenagem a um dos fundadores da ISRO Vikram Sarabhai – separou-se com sucesso do veículo espacial Chandrayaan-2 (que significa mesmo “veículo espacial” em sânscrito), que ficou a orbitar a Lua.

A equipa da Chandrayaan-2  estava mentalizada que a missão desta sexta-feira seria complicada. Segundo o site da revista Nature, quando o Vikram estivesse a 35 quilómetros de distância da superfície da Lua, os seus propulsores disparariam para que o módulo abrande de uma velocidade de seis quilómetros por segundo para quase zero. E, mesmo que tivesse sido escolhido um sítio para a alunagem sem rochas grandes (é uma planície entre duas crateras), um dos receios da equipa da missão era o de que o local onde a Vikram pousasse fosse ligeiramente inclinado ou que tenha pequenas rochas e que o módulo possa tombar.

O grande objectivo desta missão era explorar, pela primeira vez, o pólo Sul da Lua e mapeá-lo para que se perceba se ainda há fontes de água, o que é atractivo para futuras missões com astronautas. “A razão mais importante para a escolha deste sítio é a elevada probabilidade de se encontrar água lá”, salientou à Nature Mylswamy Annadurai, ex-director do antigo Centro de Satélites do ISRO e que liderou o projecto da Chandrayaan-2 até Julho de 2018.

Já a Chandrayaan-1 – missão indiana lançada em 2008 e que ficou a orbitar a Lua – tinha detectado assinaturas de água gelada na Lua. Além disso, nem só a Índia está interessada no pólo Sul da Lua. A NASA planeia enviar astronautas para lá em 2024.

Próximos passos na Lua

Para explorar o pólo Sul, o módulo lunar Vikram libertaria o robô Pragyan (que significa “sabedoria” em sânscrito). Este viajaria mais de 500 metros na superfície lunar e recolheria amostras químicas e minerais.

Esta missão também transportou 13 instrumentos que irão recolher dados para que se medir com mais precisão a distância da Terra à Lua e se perceber melhor a sua órbita. Oito desses instrumentos ficaram a orbitar a Lua, três pertencem ao módulo lunar e dois fazem parte do robô.

Os instrumentos iriam ainda medir substâncias voláteis, como o hidrogénio e o dióxido de carbono perto do pólo Sul, bem como investigar a sua fonte, composição e distribuição. A medição de sismos na Lua será outra das tarefas destes instrumentos.

Esta missão à Lua custou cerca de cerca de 130 milhões de euros e tem a ambição de afirmar a Índia como uma “potência espacial de baixo custo”. “Este é um testemunho realmente radiante para os rápidos avanços que o país tem feito na ciência e na tecnologia nos últimos anos”, afirmou Venkaiah Naidu, vice-Presidente da Índia, citado pelo site da CNN.

Até agora, só três países conseguiram pousar com sucesso na Lua: os Estados Unidos, a Rússia e a China. Este ano, também a Israel esteve prestes a integrar este conjunto de países através da primeira sonda lunar privada, a Beresheet. Contudo, nos momentos finais acabou por falhar a aterragem. Um dos grandes momentos deste ano da exploração da Lua pertenceu à China, que conseguiu que um veículo pousasse no lado oculto do nosso satélite natural. No final deste ano, a China pretende ainda lançar a sonda Chang’e-5.

Os planos da Índia para a Lua não terminam aqui. O país espera voltar a lançar uma missão lunar – a Chandrayaan-3 – entre 2023 e 2024. Em 2022, também pretende lançar uma missão tripulada para o espaço.

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