“Se em 2013 nos tivessem ouvido, a vespa-asiática não chegava a Lisboa”

Mais importante do que destruir os ninhos é prevenir a proliferação desta espécie invasora e predadora de abelhas. O projecto GoVespa, da UTAD, prepara uma tecnologia para localizar ninhos através de microsensores e drones — mas não é tarefa fácil.

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A vespa-asiática Adriano Miranda

A vespa-asiática foi detectada pela primeira vez em Portugal no ano de 2011, em Viana do Castelo, e tem vindo a alastrar-se para o resto do país – Lisboa é, até agora, o distrito mais a sul onde a espécie foi avistada. O investigador José Aranha faz parte de uma equipa da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) que trabalha há sete anos no estudo e monitorização desta vespa – e integra um projecto que ajudará a localizar e destruir ninhos através de drones, microtransmissores e radares. Mas o problema, diz, poderia ser menos grave: “Nós alertámos para a expansão destas vespas e, se em 2013 nos tivessem ouvido e as pessoas tivessem cuidado no manuseamento dos materiais, a vespa-asiática não chegava a Lisboa, como agora é o caso”.

Quanto ao cenário futuro, tudo dependerá da postura assumida pelas autoridades. “Se tivermos o cuidado de fazer as quarentenas e de fazer a devida vigilância do que transportamos e se instalarmos armadilhas, conseguimos reduzir a dispersão da vespa”, garante. “Mas se continuarmos com uma atitude de combate em vez de uma atitude preventiva, é provável que dentro de meia dúzia de anos a vespa esteja espalhada por todo o território nacional”. 

O projecto GoVespa, a que pertence José Aranha, quer ajudar a prevenir a proliferação da vespa-asiática (cujo nome científico é Vespa velutina) – desde 2012, já contabilizou 41 mil ninhos.​ “Apanhamos as vespas vivas, colamos um sensor nas ‘costas’ e soltamos a vespa para testar”, explica ao PÚBLICO. Depois, segue-se a vespa à distância até ao ninho através de radar ou de um drone e estuda-se qual a melhor forma de o destruir.

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Ninho de vespa-asiática no Porto Diogo Baptista

O problema é que “a vespa-asiática é grande para nos assustar, mas não é suficientemente grande para transportar estes emissores” de rastreamento. Os investigadores estão a tentar reduzir o tamanho do emissor para que possa ser transportado pela vespa e, ao mesmo tempo, ser reconhecido pela tecnologia radar que permite monitorizar o insecto em tempo real.

Daqui a um ano temos de ter a tecnologia a funcionar”, avisa José Aranha. Em contra-relógio, junta-se o problema do financiamento: “Agora estamos a trabalhar para publicar os resultados que temos até à data para podermos concorrer a um financiamento que nos permita desenvolver esta segunda parte do projecto.” Entre 2012 e 2015, conta o investigador, a UTAD suportou a custos próprios um projecto de estudo da vespa-asiática.

Tarefa árdua

Para já, os resultados são animadores e José Aranha assume que não existem trabalhos destes feitos com animais tão pequenos e com uma tecnologia tão barata – ainda que os norte-americanos já tivessem desenvolvido uma tecnologia similar de radiotelemetria (transmissão de dados à distância) para insectos de grande dimensão, como libelinhas ou besouros. Quando estiver pronto, o objectivo é divulgar o projecto português junto das autarquias e da população local para minimizar a dispersão do insecto invasor. “A universidade estuda o problema e aponta soluções, mas compara sempre os resultados que tem com a experiência dos apicultores”, resume.  

Identificar os ninhos não é tarefa fácil, sobretudo quando estão em árvores muito altas, camuflados dentro das copas das árvores ou por causa do quão afastados estão uns dos outros. “A tecnologia drone é adequada quando se conhece a posição do ninho, mas já fizemos testes e sabemos que não é adequada para andarmos à procura deles.” Futuramente, os drones poderão também ser utilizados em locais de difícil acesso para aplicar veneno com a ajuda de lanças.

Mas o mais importante é apostar na prevenção. Os dados recolhidos nestes sete anos de projecto são inseridos num sistema de informação geográfica que, além das características dos ninhos (e identificação da estrutura em que estão montados), indica a posição geográfica de cada um dos ninhos e a data em que foram observados. Os investigadores conseguem assim ver a “mancha espacial” da vespa e criar um modelo de potencial dispersão. Nesses locais em que há maior probabilidade de aparecerem vespas-asiáticas, é preciso que sejam colocadas armadilhas. “Se colocarmos armadilhas primárias para capturar as fundadoras, conseguimos atrasar o avanço da vespa”, argumenta José Aranha.

Em Agosto foram noticiadas duas mortes por picadas de vespa-asiática – uma em Cantanhede (Coimbra), outra em Oliveira do Bairro (Aveiro). No final de Agosto, os jardins da Quinta das Conchas e Quinta dos Lilases, em Lisboa, foram encerrados ao público, depois de sido descoberto um ninho de vespas asiáticas.

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Vespa-asiática em Telhadela, concelho de Albergaria-a-Velha NELSON GARRIDO

A viagem até Portugal

Como os membros do projecto GoVespa trabalham com muitas entidades locais, os números recolhidos são mais abrangentes do que os do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e evidenciam o alastramento da vespa-asiática em território nacional: em 2012, foram identificados 20 ninhos; em 2014, eram 600; e, em 2015, o projecto registou 9 mil ninhos. Ao todo – desde 2012 até ao início de Agosto de 2019 – foram já contabilizados 41 mil ninhos de vespa-asiática.

O percurso da vespa-asiática até chegar a Portugal foi marcado por acasos e facilitado pela falta de vigilância e cuidado no manuseamento de materiais florestais, lamenta José Aranha. “A vespa-asiática chegou acidentalmente a França em 2004, através do transporte de bonsais e material para jardins” que trariam consigo um ninho primário de vespas-asiáticas que se foram proliferando. “A determinada altura houve um temporal em França que derrubou centenas de hectares e, em 2011, comprámos essas árvores que chegaram a Portugal com ninhos, daí entrarem em Viana do Castelo.” E, da mesma forma que chegou a estes sítios por acaso, “agora chegou a Lisboa porque alguém a levou para Lisboa – sozinha não chegou”.

Ainda que possam ser assustadoras, as vespas-asiáticas só representam perigo para os humanos caso a pessoa picada seja alérgica – o que pode causar a sua morte – ou se for picada por um grande número destas vespas (quando se tenta derrubar um ninho, por exemplo), já que a quantidade de veneno se torna letal. De resto, explica o investigador, a diferença entre as picadas de outras vespas ou abelhas reside apenas na dor sentida.

A vespa-asiática tem a cabeça preta com face laranja, asas fumadas, extremidades das patas amarelas, tórax negro, e o abdómen preto com duas pequenas faixas amarelas. É um insecto invasor e predador de abelhas. “São insectos que caçam nas flores e nas colmeias, comem os insectos polinizadores”, explica José Aranha. Como não têm predadores naturais, representam grande perigo para a biodiversidade.

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Vespeiro de vespa-asiática em Vila Nova de Gaia PAULO PIMENTA

Como adiantava a agência Lusa no final de Agosto, a destruição dos ninhos deve ser feita com equipamento de protecção e seguindo as orientações constantes no plano de acção, nunca se devendo usar armas de fogo (de caça), mesmo no caso de difícil acesso aos ninhos, pois este método só provoca a destruição parcial do ninho e contribui para a dispersão e disseminação da vespa-asiática por constituição de novos ninhos. Isto porque, na ausência ou perda da rainha, as obreiras desta espécie têm a capacidade de se transformarem em fêmeas fundadoras e construírem novos ninhos.

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