Opinião

A pós-verdade

Se uma coisa aconteceu mas não era necessário que acontecesse, isto é, podia não ter acontecido, então passa a ser irrelevante a circunstância de realmente ter acontecido.

Num artigo publicado em 1967, intitulado Verdade e Política, Hannah Arendt descreve uma conversa ocorrida na década de vinte do século passado entre o antigo chefe do Governo francês, Georges Clemenceau, e um representante da República de Weimar. Arendt chama à colacção esse diálogo porque, no decorrer do mesmo, Clemenceau, questionado pelo seu interlocutor sobre o que ele pensava que iriam dizer os historiadores a respeito de quem teria tido mais responsabilidades no desencadeamento da Primeira Guerra Mundial, respondeu da seguinte forma: “Não sei o que eles irão dizer, só tenho por seguro que nenhum deles dirá que a Bélgica invadiu a Alemanha.”

Nesse texto Arendt alerta para a tentação observada na época contemporânea para transformar aquilo que designa por “verdades de facto” em meras opiniões. Quando isso sucede fica fortemente abalada a possibilidade de uma discussão séria e racional entre os seres humanos. Ela percebeu e denunciou os riscos inerentes ao avanço de uma política da mentira organizada, fosse na sua versão extremada própria dos sistemas totalitários, fosse numa expressão mais diluída nas sociedades democráticas.

A relação entre a verdade e a política constitui um tema recorrente na história do pensamento ocidental. Desde muito cedo se compreendeu o carácter peculiar da dimensão política pela sua ligação ao campo da contingência, da opinião e do pluralismo. Aristóteles legou-nos contributos decisivos nesse âmbito ao reconhecer e ao estabelecer a especificidade do discurso político.

Admitindo, assim, que a categoria da verdade tem características próprias no universo social e político haverá que deixar claro, contudo, que o que se passa hoje com a chamada pós-verdade e as fake news nada tem que ver com esta linha de reflexão presente na tradição ocidental. Estamos perante uma coisa nova. O conceito de pós-verdade, que foi em 2016 considerada a palavra do ano pelo Dicionário de Oxford, remete para uma representação da realidade de tal modo delirante que impossibilita a comunicação humana. A pós-verdade assenta numa ideia muito simples: dada a natural contingência de todos os acontecimentos a verdade de facto não tem nenhuma supremacia - nem ontológica nem epistemológica - sobre as múltiplas verdades alternativas susceptíveis de serem imaginadas. Foquemo-nos no exemplo mais conhecido e divulgado que clarifica isto: aquando da tomada de posse de D. Trump a sua principal assessora de comunicação afirmou peremptoriamente que o número de pessoas que a ela assistiram tinha sido muito superior ao verificado na idêntica cerimónia de B. Obama. Perante a evidência fotográfica da falsidade desta afirmação a senhora em causa, ao invés de se desculpar por ter mentido, optou por dizer que se estava perante uma verdade alternativa. Não estamos diante de um conflito de interpretações, estamos confrontados com um discurso que procura relativizar a noção de verdade aplicada a tudo quanto é contingente, independentemente dos acontecimentos terem ou não ocorrido. Se uma coisa aconteceu mas não era necessário que acontecesse, isto é, podia não ter acontecido, então passa a ser irrelevante a circunstância de realmente ter acontecido. Facilmente poderemos perceber a que extremos de loucura individual e colectiva este tipo de procedimentos nos poderá levar.

A mistura das verdades alternativas com as fake news constitui uma ameaça essencial às democracias. As democracias só podem sobreviver se as instituições políticas que as conformam estiverem alicerçadas num permanente diálogo intersubjectivo que, obviamente, só é possível na presença de referências factuais precisas. De outro modo entraremos no terreno pantanoso das proclamações proféticas, dos insultos desvairados, no culto dos identitarismos tribalistas, na apologia desregrada de irracionalismos de toda a espécie. Com tantos demónios à solta será impossível o mais pequeno debate democrático.

O que se passa hoje nas redes sociais já é de molde a suscitar enorme inquietação. A ideia de um espaço público enquanto instância de acolhimento e de promoção de uma discussão racional e eticamente elevada parece ter dado lugar a uma verdadeira cloaca de impropérios, de boçalidades e de crueldades. A coisa é de tal ordem que pode conduzir a um verdadeiro questionamento sobre a real dimensão do mal e da estupidez no seio da Humanidade. A partir daí poderão mesmo surgir teorias assentes no questionamento da vocação humana para a prática democrática. Não seria nada estranho que ressurgissem teses preconizando a necessidade de restauração de um modelo elitista de condução das sociedades dotado de características precariamente democráticas.

Constitui um clamoroso erro pensar que só a extrema-direita detém culpas no cartório neste domínio. É certo que as tem e que lhe serão mesmo consubstanciais. As responsabilidades, contudo, estão muito repartidas abarcando todos os segmentos políticos e sociais. Vivemos tempos dados à exaltação de fanatismos de diferentes orientações. Quase cem anos depois de ocorrida a conversa acima aludida entre Clemenceau e um alto dignatário alemão não seria de espantar que alguém se lembrasse de dizer que os grandes culpados pelos distúrbios contemporâneos eram, afinal de conta, os belgas. Pela simples razão de terem invadido a Alemanha em 1914.