Opinião

Tabaqueira: porque descartou Piano a sua reabilitação?

Faz espécie, sim, a lenta agonia por que tem passado aquela estrutura majestosa, aquela majestosa estrutura de ferro e tijolo, aquela que é hoje um dos raros exemplares da arquitectura industrial ainda de pé na cidade de Lisboa.

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daniel Rocha

Agora que a construção (e comercialização) do empreendimento “Jardins de Braço de Prata” entrou finalmente em velocidade cruzeiro (as suas “sementes” foram lançadas àqueles terrenos da zona oriental de Lisboa há cerca de 25 anos…), fará espécie a quem por lá passar para ver os ditos a crescerem e se interessar por essas coisas do Património, o estado lastimável a que os bem-pensantes e “planejadores” desta cidade deixaram chegar a estrutura notável de ferro e tijolo que foi, e a espaços ainda é, o edifício da antiga Tabaqueira.

Verdade seja dita que, para muitos, é indiferente o legado arquitectónico, muito menos o histórico, daquela magnífica estrutura, marca indelével da nossa arquitectura do ferro, erguida na década de 20 para a então fábrica de tabaco do magnate industrial Alfredo da Silva (um verdadeiro empreendedor à luz do conceito de Karl Schumpeter), e uma das primeiras unidades industriais do pós-monopólio estatal, que ali laborou até 1963 (nesse ano havia de rumar a Albarraque, nos arredores de Sintra, onde acabou por encerrar passados alguns anos) e que foi responsável pelos “Tabacos da Tabaqueira, Os Melhores do Mundo”, entre eles os célebres “Definitivos”, hoje política e cientificamente incorrectos, e com razão.

Dentro em breve, inclusive, não será de estranhar que a toponímia local (Rua da Tabaqueira, Largo do Tabaco) seja substituída por algo como “silver street” ou “river plate square”, designações mais consentâneas com o espírito da época em que vivemos e prontas a servir a qualquer visto dourado que ali pretenda lavar alguma coisa que não folha de tabaco.

Faz espécie, sim, a lenta agonia por que tem passado aquela estrutura majestosa, aquela majestosa estrutura de ferro e tijolo, aquela que é hoje um dos raros exemplares da arquitectura industrial ainda de pé na cidade de Lisboa (recorde-se a destruição massiva de património industrial que ocorreu em Alcântara e na Boavista há coisa de 20 anos, com a demolição completa de vários edifícios e o desaparecimento de máquinas e utensílios os mais variados, alguns autênticas relíquias, realidade que inviabilizará, por certo, a constituição de um hipotético Museu da Indústria; e fique aqui o aviso de que a recente mudança de mãos do complexo hoje conhecido por “Lx Factory” também não augura nada de bom para aquele conjunto de edifícios).

Faz espécie e revolta, mesmo, quando se sabe que os “Jardins de Braço de Prata” foram projectados pelo mundialmente famoso arquitecto genovês Renzo Piano, e que a Tabaqueira estava incluída no seu “projecto global” inicial, digamos assim, embora sendo então entregue especificamente à arquitecta Grazia Repetto, também ela genovesa.

Não se compreende, pois, como é que um arquitecto do prestígio mundial de Piano deixou cair o projecto de reabilitação da sua colega Repetto, de 2002, que é simplesmente magnífico (vide aqui o projecto), para abraçar, recentemente, um novel projecto, aparentemente, do atelier STC, que apenas projecta mais do mesmo: construção e betão.

De facto, pelo projecto magnífico de Repetto, pretendia-se (pretende-se) reabilitar todo o edifício da Tabaqueira como espaço cultural e gastronómico (“La Tabaqueira - Museo del Património Cultural Gastronomico Nazionale Portoghese-Lisbona”), pelo que tudo, mesmo tudo, seria restaurado e reinventado, com gosto e bom senso: espaços comerciais, restauração, jardins, estufas, etc., numa palavra: algo de que vão precisar e muito, os futuros moradores dos “n” condomínios que vão nascer para aquelas bandas (Beato, Poço do Bispo, Braço de Prata, Matinha).

Que se terá passado, então?

Só se sabe que pelo meio houve mudança de proprietário do lote onde se encontra o que resta da Tabaqueira, sendo que durante vários anos, e até há bem pouco tempo, marcou presença na sua ainda lindíssima fachada principal um cartaz com “Vende-se” (na altura era propriedade da EDP…). Sabe-se agora que a CML fez sempre questão em fazer de conta que não via, quiçá contando com a tradicional apatia dos lisboetas para mais tarde declarar como facto consumado o seu desaparecimento total e assim permitir a viabilização do novo projecto já citado.

Pior, em 2010, por exemplo, há registos fotográficos que são inquestionáveis: o edifício estava em muito melhor estado do que está hoje e a sua recuperação teria sido muito menos custosa. Hoje, os vidros das fachadas estão praticamente todos partidos e está corroído ou roubado todo o metal que era possível roubar e corroer, por fora e por dentro.

Pergunta-se: então, não era suposto a CML da 2ª década do século XXI comportar-se de forma mais civilizada do que a das décadas precedentes, em que permitiu que se construísse, sabe-se agora, em terrenos contaminados (por exemplo, a escola da Expo)?

Todos julgávamos enterrado esse período negro camarário de anti-património industrial (vulgo arqueologia industrial), em que edifícios emblemáticos (desde logo a Favorita, em Sapadores) e boqueirões inteiros, becos e travessas onde se localizavam as antigas fábricas de Lisboa, viraram aterros de gravilha, terrenos expectantes de betão e construção, mas nem por isso de melhor qualidade de vida.

Enganámo-nos. Redonda e duplamente.

Em primeiro lugar com a CML, porque esta não só perdeu a oportunidade de adquirir para o domínio público o edifício da Tabaqueira enquanto este estava à venda, dando assim bom uso a alguns dos milhares de euros, dos milhões, as receitas da taxa turística cobrada por cada turista que por cá dormita, como ainda não mostrou qualquer simpatia para com o projecto de reabilitação de 2002, projecto esse que, a ser abraçado pela CML, podia fazer a diferença em termos de política urbanística da CML doravante.

Em segundo lugar, e bem mais surpreendente, convenhamos, com Renzo Piano.

Porque ninguém está à espera que um arquitecto do seu gabarito, uma daquelas estrelas da Arquitectura que habitualmente contamos com os dedos de uma só mão, seja indiferente ao Património pré-existente, no caso, seja completamente indiferente ao pequeno mas majestoso e histórico edifício da antiga Tabaqueira, deixando cair no esquecimento o belo projecto de reabilitação que a sua conterrânea fez para ele, e para Lisboa, em Dezembro de 2002. Mais a mais um projecto que complementaria os seus “Jardins de Braço de Prata” de uma forma espectacular.

Signor Arch. Dott., Renzo Piano, a Tabaqueira de Braço de Prata pode ser salva.

Ajude-nos!