Opinião

O campeão vence e, ao perder, cede o lugar ao campeão seguinte

A direcção do COP valoriza o curto prazo ao silenciar a criação de condições de produção desportiva, hoje, para que Portugal beneficie de indicadores desportivos de nível europeu dentro de 10 ou 20 anos.

Em 2013 o Papa Bento XVI ao renunciar ao seu pontificado criou condições para a eleição do Papa Francisco. O mundo surpreendeu-se com a decisão e passou a habituar-se à reforma que nomeará Tolentino Mendonça como Cardeal. A partir da situação herdada o Papa Francisco tem procurado melhorar a Igreja Católica. O mundo apercebe-se do seu labor e acalenta a esperança da transformação para melhor das coisas que são antigas. Como mera hipótese, se pouco tivesse sido transformado desde início a indigitação cardinalícia de Tolentino Mendonça poderia não existir.

Após o percalço de Pequim, o Comité Olímpico de Portugal (COP) preferiu manter a mesma liderança em 2008, continuando as políticas falhadas. Os resultados pioraram em 2012. Mudando a liderança em 2013, pareceu bem à nova direcção manter as políticas anteriores e os resultados olímpicos em 2016 encravaram nos de 2012.

O comportamento imobilista das direcções do COP tem conduzido à incapacidade de combater o seu insucesso olímpico. As razões apontadas da estagnação da produção olímpica são a genética, cultura, alimentação, futebol dos portugueses. Acrescenta-se que a competitividade e produtividade dos outros são um empecilho inamovível e acrescentam-se tantas outras desculpas para ocultar as responsabilidades do COP. É interessante constatar que os seus dirigentes ficam décadas nos cargos não se lhes aplicando as regras simples dos atletas que, quando perdem, saem do lugar ocupado, dando lugar àquele que é melhor do que ele.

Porém, ao contrário das razões e do imobilismo de política das direcções do COP, as federações olímpicas não ficaram quietas e, em primeiro lugar, a Federação de Ginástica publicou um livro sobre o desenvolvimento desportivo das federações. Em segundo lugar, as federações descreveram as difíceis condições de produção com que se defrontam e a hipótese de o resolver através da Plataforma do Desporto Federado (PDF). Em terceiro lugar, procuraram encontrar uma organização desportiva de topo para operacionalizarem a PDF.

Fiel à sua tradição olímpica, a entrevista do presidente do COP ao jornal Record sustenta a suficiência do COP. Diz que tudo está bem, tudo foi feito e outros é que impedem o melhor que se queria fazer.

A entrevista de 5 páginas sugere que as políticas públicas da legislatura anterior foram adoptadas pela geringonça e sem sobressaltos. A entrevistadora pergunta se “os atletas não se podem queixar por falta de condições para chegarem a Tóquio melhor preparados”, ao que o presidente do COP responde “Queixarem-se podem sempre [risos]” e conclui “não direi todos os meios que são necessários, mas aqueles que o país consegue reunir”. Esta afirmação sobre “aqueles (meios) que o país consegue reunir” coloca à frente das carências dos atletas e das federações olímpicas os argumentos de Jeroen  Dijsselbloem quando afirmou que a população portuguesa vivia acima das suas possibilidades.

Certas respostas são uma coisa, a sua contrária e outra ainda e responsabilizam as federações. Acerca da existência das organizações desportivas, o comité olímpico e a confederação, diz-se: “Há países em que há dois organismos, outros em que há só um, outros em que já houve dois e agora só há um. Isso depende da vontade das federações”; noutra afirmação sobre as relações com o Governo nota: “Também tivemos boas relações com o anterior governo. Temos boas relações com o actual, numas coisas concordamos, noutras nem tanto, mas numa coisa tenho de reconhecer: da parte do actual Governo, como do anterior, obtive sempre relações de enorme cordialidade, de excelente colaboração”. Por fim, à pergunta do Record “Em comparação com outros países, como se posiciona a preparação olímpica portuguesa?”, explica da seguinte forma “Estamos ainda distantes de uns, igual a outros e à frente de outros.” Em nenhuma destas respostas são ponderados os argumentos relativos do que seria, no entender do COP, a boa política desportiva. O entrevistado não refere a ambição da conquista de medalhas de ouro pelos campeões Fernando Pimenta e Pablo Pichardo, nem identifica para Tóquio outras medalhas e são desconhecidas as federações que se distinguem pela excelência olímpica.

Surgem insuficiências, como o reparo à valorização das medalhas pelo Presidente da República, já notada por Gustavo Pires no site do jornal A Bola. Em alternativa à crítica, o COP não valoriza o voluntarismo da Presidência alertando o Governo e as federações para a necessidade de políticas públicas e projectos em resposta aos anseios da Nação.

Surge o contrassenso desportivo da entrevista não discutir o futuro a vários ciclos legislativos e desportivos que são a condição do sucesso da juventude olímpica. Um atleta de alto rendimento, que pode ser um campeão olímpico, ou não, cria-se ao longo de mais de 15 anos com políticas públicas sempre atentas e assertivas às necessidades do jovem. Caso esse praticante de elevado potencial não seja um campeão, o seu potencial surgirá noutras facetas da sua personalidade, na produtividade e na capacidade de se dedicar a projectos sociais, não descurando o mundo que o desporto lhe permitiu interiorizar.

A direcção do COP valoriza o curto prazo ao silenciar a criação de condições de produção desportiva, hoje, para que Portugal beneficie de indicadores desportivos de nível europeu dentro de 10 ou 20 anos. À entrevista falta a interpretação do passado e a partir dessa leitura crítica e responsável, gizar o rasgo de liderança capaz de aumentar a produtividade no alto rendimento desportivo e na prática desportiva regular da população portuguesa.

A falta de decisão da política pública nacional sobre o longo prazo é o labirinto em que se encontram as federações desportivas. No passado as federações desfiliaram-se da CDP porque o desempenho das direcções que elegiam não combatia os fracassos da produção desportiva federada. Na busca de condições de operacionalização da PDF, as federações acabam por votar em eleições onde existe um produto-desportivo-caduco. Paradoxalmente, as eleições são ganhas pela velha continuidade, que igualmente é acarinhada na entrevista do COP. As afirmações ao Record são um vislumbre das razões que empurraram as federações desportivas nacionais entre “Ceca e Meca”, à procura do seu futuro, à medida que são atingidas pela pobreza de mais uma legislatura e um ciclo olímpico de desenvolvimento desportivo.

Neste momento de contínua-continuidade das políticas, as federações apenas podem esperar a falência, seja a desportiva, a financeira ou a económica e a social que tantas têm sofrido ultimamente. A CDP e o COP consubstanciam-se, hoje, como falhas do Modelo de Desporto Português. Os atletas, clubes, associações e federações são os seus perdedores crónicos.

A criação da Plataforma do Desporto Federado e a oportunidade perdida das eleições à CDP demonstram como o desenvolvimento do desporto é complexo, necessita de ser equacionado por múltiplos contributos, que podem ser contraditórios, e ser criado no longo prazo.

Faltam instrumentos que assegurem às federações poder para fazer valer os seus direitos, principalmente na definição das políticas que mais lhes interessam no seio das suas organizações desportivas de topo, sejam a CDP ou o COP, caso a reforma do Modelo de Desporto Português continue a tardar. As eleições são sempre uma oportunidade para rodar a agulha desportiva, esperando-se pelo melhor.

Apesar dos momentos eleitorais há a necessidade urgente de instituições desportivas que promovam a capacidade de saber ouvir e dialogar sobre soluções alternativas na procura de consensos entre os parceiros desportivos. O COP da continuidade tem o hábito de gostar de se ouvir e isso tem dados os péssimos resultados conhecidos.

Após a sua abdicação, o Papa Bento XVI foi nomeado Papa emérito Bento XVI.

Sugerir correcção