Opinião

Maioria — que percentagem?

A obtenção da maioria para o PS baixou 5% passando de 44% para 39%. É a mais profunda alteração do sistema político português desde 1974.

Há ainda quem se lembre dos cartazes do PS em 1985, com a frase “43% para a maioria”. Foram publicidade enganadora pois na altura a maioria para o PS situava-se nos 45% (aliás ficou-se pelos 20%).

Dez anos depois, por solicitação do Expresso, fiz um inédito trabalho de previsão de mandatos com base em percentagens diferentes, no qual concluí que o PPD/PSD atingia a maioria com 43,5% e o PS só com 45%. Era uma tese, que se comprovou, pois em 1995 o PS obteve 43,8% e elegeu 112 deputados e em 1999 teve 44% e elegeu 115 (com a exceção de obter três mandatos na emigração). A tese comprovou-se com resultados concretos, e baseava-se na configuração partidária da altura, onde os Outros Partidos/Brancos e Nulos (OP/B/N) tinham cerca de 6%, e o PPD/PSD se situava à volta de 33%.

Em 2005, o PS, com 45%, só mais 1% do que em 2001, teve maioria com mais cinco deputados, embora só elegesse um nos círculos da emigração. Porque é que este 1% teve tanta importância? Na verdade teve pouca ou nenhuma, e a maioria deveu-se ao facto de o PSD ter ficado abaixo dos 30%.

Daqui resulta que, além do resultado do partido mais votado, conta ainda mais a diferença face ao segundo partido. Também é relevante a evolução do sistema partidário português, que oscilou sempre entre quatro partidos (PS, PPD, PCP e CDS), e cinco com o MDP, depois o PRD e mais tarde o BE. Agora passará a 6 (com o PAN) e, apesar de ser dos mais resilientes da Europa, sempre vai evoluindo.

Agora, em 2019, temos um novo quadro. Segundo a média das sondagens os OP/B/N dobram, passando de 6% para 12%, e a diferença face ao segundo partido situa-se, no mínimo, em 15%. A última sondagem publicada (Pitagórica, no último dia de Agosto) daria ao PS, sem contar com as regiões autónomas e a emigração, portanto só em Portugal Continental e com um universo de 215 deputados, maioria na Assembleia da República.

A luta da direita em 2019 não é ter 116 deputados para governar mas 78 para impedir a (aliás altamente improvável) hipótese de uma revisão constitucional sem a sua participação. Tenho lido e ouvido políticos, jornalistas e comentadores continuarem a exprimir-se como se a realidade não se tivesse alterado. Acontece que a mudança é profunda. No que concerne às sondagens, cada um dar-lhes-á o crédito que entender. O meu ponto é outro. A obtenção da maioria para o PS baixou 5%, passando de 44% para 39%. É a mais profunda alteração do sistema político português desde 1974.