BCE pede que Europa não ceda ao “canto de sereia” da libra do Facebook

Membro executivo do Banco Central Europeu afirmou que a moeda digital poderá afectar a capacidade de controlo do euro.

O Facebook já admitiu que tem trabalho pela frente antes de lançar a libra
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O Facebook já admitiu que tem trabalho pela frente antes de lançar a libra Dado Ruvic/Reuters

A libra, a moeda digital que o Facebook pretende lançar, continua a somar dúvidas e preocupações. Um membro executivo do Banco Central Europeu (BCE) afirmou agora que, caso venha a ter uma aceitação generalizada, a moeda poderá limitar a capacidade da instituição para controlar o euro.

“Dependendo do nível de aceitação da libra e da posição do euro no cabaz de reservas, poderá reduzir o controlo do BCE sobre o euro, prejudicar o mecanismo de transmissão de política monetária ao afectar a posição de liquidez dos bancos da zona euro, e minar o papel internacional da moeda única”, afirmou Yves Mersch, membro executivo do banco central, esta segunda-feira, numa conferência do banco central.

Mersh acrescentou que a Europa não devia cair na tentação de acreditar nas promessas da libra. “Espero sinceramente que as pessoas da Europa não sejam tentadas a abandonar a segurança e a robustez de soluções e canais de pagamento já estabelecidos, a favor das promessas sedutoras mas enganadoras do canto de sereia do Facebook”, disse, citado pelas agências internacionais.

O Facebook anunciou em Junho que pretende criar uma nova forma de pagamento, em parceria com várias outras empresas e entidades, assente numa moeda digital chamada libra, que será suportada por reservas que serão em parte constituídas nas principais divisas mundiais. O anúncio já suscitou dúvidas de reguladores e legisladores e não há uma data exacta para o lançamento, inicialmente apontado para 2020.

Preocupações

Esta não foi a primeira vez que um membro do BCE expressou preocupações com a libra, e este também não é o primeiro banco central a fazê-lo. Tanto membros da Reserva Federal dos EUA como do banco central chinês já mostraram desconforto com as possíveis consequências de uma moeda digital global, controlada por empresas privadas.

Em Julho, o Congresso e o Senado dos EUA questionaram o executivo do Google responsável pela libra, David Marcus, em audições que foram, no geral, hostis à ideia da moeda. Marcus garantiu então que a libra não será lançada até que estejam esclarecidas todas as dúvidas das autoridades e que não tem qualquer intenção de concorrer com os bancos centrais. “As divisas na Reserva da Libra estarão sujeitas às políticas monetárias dos respectivos governos – políticas que esses governos continuarão a controlar. A Associação Libra, que vai gerir a reserva, não tem intenção de concorrer com qualquer divisa soberana ou de entrar no jogo da política monetária”, disse o executivo.

A libra foi anunciada como uma parceria entre 28 entidades, incluindo empresas de pagamentos e cartões bancários, como o PayPal, a Visa e a Mastercard, e prestadores de serviços, como a Uber e o Spotify. Estas entidades formaram uma associação com sede em Genebra, na Suíça, cabendo ao Facebook o desenvolvimento de uma carteira electrónica, chamada Calibra, que permitirá guardar a moeda e fazer pagamentos.

A reacção dos reguladores terá levado alguns parceiros a terem dúvidas sobre o projecto, de acordo com alguns artigos na imprensa internacional. No mês passado, uma notícia do Financial Times, que citava fontes não identificadas, afirmava que pelo menos três das entidades que formam a associação estavam a ponderar distanciar-se da libra.

A libra usa a mesma tecnologia em que assentam a bitcoin e uma miríade de outras chamadas criptomoedas – mas terá um funcionamento muito diferente. Em vez de ser uma moeda descentralizada, será controlada por um grupo restrito de entidades. Também não ser possível “minerar” moedas – um processo de validação das transacções que no caso da bitcoin exige grande capacidade computacional e que é recompensado com a atribuição de moedas.