Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

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Tolentino Mendonça e a simbiose entre arte e religião

Tolentino é a figuração de toda uma nova geração que, independentemente de ser ou não católica, não deixa de se interrogar, de pensar, de ler e, até, de escrever.

 José Tolentino Mendonça tem 53 anos. É cardeal, teólogo e poeta. Presidirá à celebração das cerimónias do próximo 10 de Junho e foi este domingo nomeado cardeal do Vaticano pelo Papa Francisco. Mais do que um indivíduo com uma biografia vasta e singular, é alguém que se apresenta quase como um emblema, representando a ideia de que, por vezes (e tantas que são) a arte e a religião andam de mãos dadas.

Enquanto clérigo apresenta um percurso repleto e exímio, visto aos meus olhos de ateia, mas é na poesia que apresenta uma obra sui generis. Escreve sobre o silêncio, sobre a memória e a constante busca da identidade que nos persegue, enquanto seres pensantes. É o existencialismo poético de um católico, que nos demonstra que, afinal, a religião também é fundada na arte (ou não tivessem sido os primeiros monumentos construídos pelo homem de cariz religioso) e é possível um crente reflectir, de forma relativamente objectiva, sobre questões de cariz existencial.

De facto, muitas são as vezes em que o pensamento per si, e especialmente o de cariz existencial, parece assombrar a Igreja Católica, pois decerto que um crente para quem a origem da vida seja uma dúvida máxima dificilmente aceitará a resposta da fundação do mundo pela mão de Adão e Eva e da sua maçã pecaminosa. No entanto, Tolentino, na sua pele de poeta, que ocasionalmente predomina face à de teólogo, não deixa que a sua crença o iniba de se questionar acerca de todas essas temáticas. Apresenta-se quase como uma luz que vem iluminar a escuridão a que a Igreja Católica se tem votado nos últimos anos, é um vulto de modernidade.

Mais, Tolentino é a figuração de toda uma nova geração que, independentemente de ser ou não católica, não deixa de se interrogar, de pensar, de ler e, até, de escrever. Uma geração que acredita em Deus, mas que sabe que acreditar em Deus não é incompatível com a objectividade da ciência. É certo que a sua poesia não apresenta, por exemplo, nenhuma temática que remeta para a intervenção ou crítica social e, muito provavelmente, a sua consciência estará em concordância com muitas das ideias preconizadas pelo Vaticano, de que é, actualmente, arquivista do Arquivo Secreto. Todavia, tal não nos impede, independentemente do nosso nível de fé, de admirar a sua obra que entrelaça a arte e religião, estando, portanto, em concordância com a história, em particular a da filosofia, que nos apresenta ambos os movimentos como caminhos (e refúgios) na procura de um sentido para a vida, num tempo em que estes dois se têm tornado, cada vez (e muitas vezes fruto do conservadorismo católico, é certo) incompatíveis.

Ora, este singular cardeal, que acredita que “passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos aprofundar”, é indubitavelmente um rosto particular da literatura portuguesa, um clérigo que ousou ser também poeta, deixando a tantos crentes a dúvida de se, de facto, Florbela Espanca não tinha mesmo razão e “ser poeta é ser maior" (mesmo quando isso implica ser maior que aquele que prega a palavra considerada divina).