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Ana Telma Rocha sente-se “invisível”. A história da portuguesa que interrompeu o directo da Sky News

Ana Telma Rocha é a portuguesa que interrompeu o directo da Sky News para falar “apaixonadamente” sobre o “Brexit”. “Não aguentei mais, tive de sair à rua e falar”, diz a imigrante, cujo processo de pedido de residência permanente está a ser acompanhado pelo Estado português.

Ana Telma Rocha chegou a casa, já tarde, na quarta-feira, 28 de Agosto, e escutou a voz da colega de casa, carregada de sotaque britânico, a pedir-lhe para “não ligar a televisão” ou iria “ter um ataque cardíaco”. Mesmo depois do pedido “dramático”, ou não fosse a amiga actriz, Ana decidiu ouvir os jornalistas a relatar o que se tinha passado durante o dia: Boris Johnson pedira à Rainha Isabel II uma suspensão do Parlamento britânico durante cinco semanas — e a monarca aceitara.

Horas depois, um vídeo da portuguesa correu a Internet, passou pelos meios de comunicação britânicos e espalhou-se pelos portugueses. Ana Telma Rocha, de 42 anos, foi a imigrante que interrompeu uma entrevista em directo da Sky News, um canal de televisão britânico, para falar “apaixonadamente” sobre o processo do “Brexit”. Durante um protesto no centro de Londres, sem se identificar, a mulher portuguesa cortou a palavra a uma jovem inglesa que estava a ser entrevistada para dizer que dera “a sua juventude” ao Reino Unido e que não achava correcta a forma como os cidadãos da União Europeia estavam a ser tratados. “Não aguentei mais, tive de sair à rua e falar porque as pessoas em Portugal não estão a perceber o que se está aqui a passar. A imagem que se transmite é que está tudo calmo. Falei por quem está em situações piores [do que a minha]”, conta Ana Telma, ao telefone com o P3.

A portuguesa chegou ali, não àquele lugar em concreto, mas ao país que na altura a acolheu, há coisa de 20 anos. Quis seguir as pisadas do pai, actor toda a vida — é filha de António Rocha, o “Rocha” de Duarte & Companhia. Chegou a fazer audições para o Conservatório Nacional de Teatro, ainda em Portugal, mas depois a sua vida deu “uma volta de 180 graus” e decidiu ir à procura de outra coisa, “fora de Lisboa”. 

Com um destino, mas ainda sem propósito, chegou ao Reino Unido quase de mãos a abanar. Ali, voltou ao teatro, fez formações na área, lavou pratos, serviu às mesas, foi funcionária de escritório e segurança em vários eventos. Casou com um cidadão britânico e teve dois filhos, apesar de nenhum dos três viver consigo em Inglaterra. Fundou ainda a sua companhia de teatro independente — que já soprou 12 velas — e​ que actua principalmente em festivais porque “os bilhetes são mais baratos” e Ana Telma “quer que o povo vá ao teatro”.

Depois de “32 empregos diferentes”, decidiu que a profissão de técnica de saúde para pessoas com deficiência motora, conjugada “sempre” com o teatro, lhe enchia as medidas, e assim se mantém desde há 16 anos para cá. Até que, por volta de 2016, a sombra do “Brexit” começou a pairar no país e, diz Ana Telma, alcança, sobretudo, quem não nasceu no Reino Unido.

Um impasse no processo

“Assim que os resultados foram conhecidos, o país mudou”, conta Ana. “As pessoas começaram a ser racistas, violentas, xenófobas. Não percebo o que aconteceu, de um momento para o outro deixei de poder falar ao telemóvel no autocarro, passei a ter vergonha de dizer o meu nome numa peça de teatro porque é português, como se eu fosse uma mancha, [mas] eu não sou uma mancha.”

Até ao “Brexit”, nunca sentira necessidade de pedir o estatuto de residente permanente. Nos últimos meses, decidiu regularizar a sua situação, mas entretanto o processo entrou num impasse: uma das informações necessárias para terminar o pedido não estava correcta e os serviços britânicos afirmam que a imigrante terá de começar tudo de novo, o que a preocupa, uma vez que a data marcada para a saída do Reino Unido da União Europeia está “perto”. A entidade empregadora de Ana Telma tinha-lhe enviado um link por e-mail para que pudesse iniciar o pedido do estatuto de residente permanente, mas a cidadã portuguesa afirma que da primeira vez que tentou não conseguiu completar o processo. Ainda ligou para os serviços britânicos, mas conta que teve “pouca sorte com o funcionário que a atendeu”.

“A empresa quer que as pessoas preencham isto o mais cedo possível para regularizar a nossa situação cá, mas nós trabalhamos 63 horas semanais e não podemos deixar o paciente porque ele pode deixar de respirar, pode cair. Além disso, estamos constantemente ligados a um sistema que nos diz os sinais vitais de cada cliente, daí que seja muito difícil estar a preencher as coisas correctamente. Provavelmente eu não o fiz bem”, confessa a imigrante portuguesa. Mesmo admitindo que o erro foi seu, Ana Telma queixa-se da dificuldade do processo e do quão errado é o conceito de pedir um estatuto de residente. “As pessoas já estão aqui a trabalhar há muito e já deviam poder ficar só mostrando a sua identificação e mais alguns dados”, considera.

"See you later"

Tem acompanhado as reacções e os comentários ao seu testemunho. “Em Inglaterra, o que se tem gerado e o que vocês estão a ler é bonito. As pessoas ficaram contentes por eu ter falado porque até agora ninguém pôde expressar-se, mas as coisas chegaram a um ponto irreversível e foi por isso que eu falei. Não foi só para os portugueses, foi para todos os que estão na mesma situação”, conta Ana Telma, referindo-se principalmente àqueles “que nunca descontaram”, que “sempre enviaram dinheiro para a família” ou que têm “contratos irregulares de trabalho” e que agora ficaram desprotegidos e perante um futuro incerto.

Mas nem toda a gente viu com bons olhos o desabafo ao canal britânico. A portuguesa já recebeu mensagens insultuosas e que continham ameaças, e foi isso que a fez refugiar-se durante alguns dias na Escócia. “O que me preocupa é estado das coisas, o estado da sociedade da qual uma pessoa fez parte durante 20 anos e do nada é apagada, é invisível, é-lhe dito: “see you later”.

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A empresa de Ana Telma funciona em sistema rotativo, daí que a portuguesa se tenha que deslocar frequentemente para outras cidades, zonas do país ou mesmo para o estrangeiro, pernoitando nas casas dos pacientes que cuida. Este método de rotação piorou muito devido à recente saída de muitos funcionários nascidos maioritariamente fora do Reino Unido. “Além dos britânicos não quererem fazer estes trabalhos, não há pessoas suficientes para os fazer”, explica, sublinhando que não tem planos para voltar a Portugal de vez. 

Estado português já a contactou

Contactada pelo P3, fonte do gabinete de José Luís Carneiro garante que Ana Telma Rocha já conversou com o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e que será ajudada a reiniciar o seu processo: “O que ela nos transmitiu é que teve um problema na emissão do número de segurança social por parte dos serviços britânicos, informação que é um dos sinais comprovativos de permanência no Reino Unido, além de outras como contratos de trabalho e de arrendamento ou outros dados fiscais, tudo o que possa dizer que esse cidadão vive e trabalha no Reino Unido há x anos.”

A mesma fonte acrescenta também que Ana Telma não possui um passaporte português válido, facto que não a impede de se candidatar ao estatuto, uma vez que o pedido permite a utilização de um cartão de cidadão português. Garantiu ainda que a cônsul portuguesa em Londres já entrou em contacto com a portuguesa. “Mesmo que não haja acordo, os pedidos podem ser feitos até fim de Dezembro de 2020. Ninguém vai ser expulso no dia 1 de Novembro”, sublinhou.

Já José Luís Carneiro garantiu esta sexta-feira à Lusa que os portugueses residentes no Reino Unido “podem estar tranquilos”, apontando que entende “a ansiedade dos cidadãos” face ao “Brexit”, mas “o Estado português está preparado”. O secretário de Estado também frisou que os consulados de Londres e Manchester foram reforçados em meios humanos, infra-estruturas tecnológicas e meios informáticos, bem como alargados os horários. E contou que a linha “Brexit”, que começou a funcionar a 1 de Abril, apoiou mais de 30 mil cidadãos portugueses no Reino Unido que pediram esclarecimentos.

Ana Telma confirma que foi contactada pelo Estado português e acredita que o seu processo ficará resolvido em breve. Mesmo acreditando que um pedaço de papel não vai resolver a situação que se vive no país, não pretende sair para outra que tem ainda menos para lhe oferecer. “Eu já me sinto inglesa, I love England, adoro chá inglês e tostas com feijão, faço piadas de acordo com o humor britânico”, conta de forma animada. “Já tenho muitos projectos na cidade e não vou desistir até que as coisas tenham a continuação que eu tanto desejei. Acima de tudo, não vou abandonar o meu trabalho porque aquilo que eu tenho em termos de carreira em Portugal é zero.”