Governo brasileiro assume “erros” no combate às queimadas na Amazónia

Hamilton Mourão atribui a culpa pelos incêndios na Amzaónia aos “métodos antiquados” usados para limpar as terras.

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Os incêndios na Amazónia a 18 de Agosto deste ano Bombeiros de Porto Velho/EPA

O vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, reconheceu na quinta-feira à noite que o Governo “cometeu erros”, atrasando-se no combate às queimadas na Amazónia, uma vez a situação se repete "todos os anos”.

“Cometemos erros, sim. Todos os anos sabemos que Agosto, Setembro e Outubro são meses de seca e de queimadas. Compete às entidades governamentais, a todos os níveis, travar o combate às ilegalidades cometidas neste momento”, disse Hamilton Mourão num encontro com empresários, segundo o jornal O Globo.

O vice-presidente atribuiu os incêndios que lavram na Amazónia aos “métodos antiquados” de limpeza de terrenos. “Existe gente que trabalha nesse limite da fronteira entre a selva e o cerrado [ecossistema mais seco e que cobre um quarto do território do Brasil], que ainda opera de acordo com o avô, com o pai, conceitos antigos de uso do solo. Ele corta o mato, espera o mato secar e ateia fogo. É aí tem de entrar a acção do Governo”, sublinhou Mourão.

Para além dos agricultores, o vice-presidente mencionou os madeireiros, os grileiros (os que usam documentos falsos para se apoderar de terras) e os garimpeiros como os principais responsáveis pelas queimadas ilegais na Amazónia: “Nós temos de dar oportunidade de trabalho a essas pessoas, porque senão elas vão buscar um modo de ganhar a vida.”

Na quinta-feira, o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, assinou um decreto a proibir queimadas em todo o território nacional por dois meses, que corresponde ao período de seca na Amazónia. A medida “excepcional e temporária” de resposta aos fogos que têm deflagrado na floresta amazónica no último mês já entrou em vigor.

“Aquela esmola oferecida por Macron”

Também na quinta-feira, Jair Bolsonaro disse que os 20 milhões de dólares (cerca de 18 milhões de euros) oferecidos pelos sete países mais ricos do mundo – uma ajuda anunciada pelo Presidente francês, Emmanuel Macron –, são uma “esmola”, cita o jornal Folha de S. Paulo.

“Tivemos um encontro na terça-feira com os governadores da região amazónica. E ali só um falou em dinheiro, aquela esmola oferecida pelo Macron. O Brasil vale muito mais do que 20 milhões de dólares”, disse Bolsonaro. O Presidente brasileiro apontou o dedo aos países estrangeiros que acusou de estarem a tentar comprar “o Brasil às prestações”.

A oferta foi, num primeiro momento, rejeitada pelo Palácio do Planalto, mas Bolsonaro voltou atrás e disse que aceita o dinheiro se Macron pedir desculpa pelos insultos que lhe fez. Numa rede social, Bolsonaro teceu comentários sobre a idade da primeira-dama francesa, Brigitte Macron, e vários membros do seu Governo insultaram o Presidente francês. Macron respondeu dizendo que Bolsonaro lhe mentiu sobre o seu compromisso ambiental e acrescentou que os brasileiros merecem um “Presidente à altura do cargo”.

Apesar da resistência em aceitar a verba oferecida na cimeira do G7, Bolsonaro aceitou a ajuda enviada pelo Reino Unido, no valor de dez milhões de libras (cerca de 11 milhões de euros), diz a Folha.

Também o filho do Presidente, Eduardo Bolsonaro, comentou a ajuda oferecida pelo G7, comparando a Floresta Amazónica a uma mulher bonita a quem “alguém quer pagar uma bebida”. “A Amazónia, essa mulher tão bonita, outro cara vai lá, pisca para ela, quer pagar uma bebida para ela, não posso achar que essa bebida está sendo paga de graça, né?”, disse, citado pelo jornal O Globo.

Para o filho de Bolsonaro, o Governo brasileiro não deve continuar a “prostituir-se” para receber ajuda internacional. “Isso aqui é o Brasil, aqui quem manda somos nós. Se quiserem continuar depositando, que continuem, se não quiserem, a gente não vai ficar chorando e fazendo todo o possível por esse dinheiro.”

Maduro acusa Bolsonaro de entregar Amazónia a latifundiários

O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusou nesta sexta-feira o seu homólogo brasileiro de entregar a Amazónia aos latifundiários, considerando que “estão a destruir” a maior floresta tropical do mundo.

“A Venezuela condena e repudia a atitude de Jair Balsonaro de entregar a Amazónia aos seus amigotes, à oligarquia de latifundiários brasileira que a está a destruir, e elevamos a nossa voz de protesto e a nossa voz de solidariedade com o povo do Brasil”, disse Maduro, fazendo alusão aos incêndios no pulmão verde do mundo.

A Venezuela é um dos países da região amazónica. “Quanto nos tem doído o incêndio que provocou Jair Balsonaro, Presidente do Brasil, na Amazónia brasileira”, disse. Segundo Nicolás Maduro, “é o fascismo do Governo brasileiro que está a destruir os direitos sociais, a destruir o pulmão da humanidade e o direito a viver no planeta”.

O governante ofereceu ainda a sua “modesta ajuda” para combater os incêndios.