Nobreza, povo e turismo: as muitas marés das praias de Setúbal

Tróia, Figueirinha, Portinho da Arrábida ou Galapinhos são das praias mais cotadas de Portugal. Tesouros que há 50 anos ainda eram só do povo.

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Arquivo Municipal Américo Ribeiro.
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Desde que no século XVI, o terceiro Duque de Aveiro se sentava num penedo na Arrábida a pescar à cana nas águas do Atlântico, até hoje, as praias de Setúbal passaram por muitas marés.

D. Álvaro de Lencastre (1540-1626) gozava do privilégio de uso exclusivo do penedo, que ganhou, por isso, o nome de Penedo do Duque, frente à entrada da gruta da Lapa de Santa Margarida, no sopé da serra, junto ao mar, uma das maravilhas locais da natureza, com uma capela no interior da terra num antigo local de culto (século XVII) onde cabem 500 pessoas. 

Consta que o nobre se divertia muito a pescar durante horas, com as praias da Arrábida desertas numa altura em que a crença popular dizia que ali apareciam “monstros marinhos” como os da narrativa sobre a costa de Sintra que Damião de Góis nos deixou na sua obra ‘Urbis Oliosioponis’ de 1554.

O sossego manteve-se durante mais de três centenas de anos, ao ponto de, no século XIX, Ramalho Ortigão testemunhar que não eram ainda as praias que davam fama a Setúbal.

“Conquanto não seja propriamente uma terra de banhos, mas uma cidade muito industriosa e muito comercial, a praia de Setúbal é actualmente bastante frequentada pelos banhistas da província do Alentejo e da Estremadura espanhola”, começa assim o capitulo sadino do livro “As praias de Portugal”. Nessa exposição, de 1876, Ortigão mostrava uma cidade “risonha e pitoresca”, cercada de “magníficos pomares” e “célebres vinhedos de moscatel” e com um “bonito passeio público”, que contava com um único e “sofrível” hotel – o do Escoveiro.

Passados poucos anos, já Setúbal investia fortemente para contrariar a ideia de Ramalho e afirmar-se como destino balnear.

Em 1902, a Empresa Setubalense de Banhos construía junto ao rio um imponente edifício para banhos inspirado no famoso Bains Napoléon, inaugurado em 1858, em Biarritz.

O novo estabelecimento balnear sadino, na praia do Troino ou do Seixal, abriu ao público na totalidade em 1904, quando a zona ribeirinha já estava a ser tomada por fábricas de conserva e os banhistas e mudarem-se para outras paragens.

Dois séculos depois do “sofrível” Escoveiro, Setúbal tem hoje 13 hotéis e 500 unidades de Alojamento Local, numa dinâmica turística que se mostra principalmente nas praias da Figuerinha, Gálapos e Galapinhos. Esta última considerada a melhor praia da Europa em 2017 e este ano uma das 15 melhores do mundo. O Portinho da Arrábida praticamente desapareceu como praia, nos últimos anos, devido a razões ambientais que substituíram o areal por pedras. Tróia deixou de pertencer ao clube de praias dos setubalense e até da região, transformada em estância turística com vários resorts e apartamentos de luxo que desincentivam a visita do povo.

A demanda popular transferiu-se para as praias da Arrábida, numa pressão sobre a serra que levou a Câmara de Setúbal, desde que assumiu a gestão por cedência de outras entidades públicas, a impor regras de circulação e estacionamento ao mesmo tempo que iniciou a qualificação de acessos e equipamentos.  

No segundo ano da ‘Arrábida sem Carros’, este Verão tem sido de “grande procura” nestas praias “como nunca houve”, disse ao PÚBLICO o gabinete da presidência do município. Um aumento atribuído ao novo passe Navegante. “O fluxo turístico aumentou com turistas da grande Lisboa, complementado com turistas estrangeiros, de Espanha, França e Itália”, refere a mesma fonte.

De 15 de Junho a 30 de Jullho, com as escolas também a banhos, a média de autocarros na estrada da Arrábida foi de 111 por dia e o número de empresas de operação turística licenciadas para circular na serra aumentou 70%.

“Quando Tróia era do Povo”
A saudade que os sadinos têm cada vez mais de Tróia já deu lugar a um livro, colectivo, publicado em 2009 e reeditado pela sexta vez há menos de dois meses. Em “Quando a Tróia era do povo”, alunos de quatro turmas do nono ano da Escola Secundária D. João II, orientados pelo professor Jaime Pinho e outros docentes, recolheram quase uma centena de testemunhos de setubalenses que guardam na memória e no coração “os Verões em Tróia antes da era do betão”.

Ao longo das décadas de 50 a 70, a península onde apenas se chegava de barco, atravessando o rio Sado, era apenas do povo, sobretudo de pescadores e famílias ligadas ao mar. Não há ainda estrada em Tróia e a ligação, mesmo de Grândola, concelho a que pertence a paradisíaca península, era feita por Setúbal.

A 1 de Julho de 1950 o jornal “O Setubalense” noticiava que “Setúbal vai despovoar-se!” tal era o “êxodo da população da cidade” rumo aos banhos. “Os frequentadores e frequentadoras das praias estão ansiosos pelo dia de amanhã, pois se inaugura a época balnear de Tróia, Figueirinha e Albarquel. As praias vão animar-se extraordinariamente”, relatava o jornal.

No início da época balnear era montada uma impressionante ponte marítima, com os barcos ‘Fernando Garcia’, ‘Vicentino’ e o buque ‘Praia da Tróia’, que se estreou em 1950 e tinha capacidade para 400 pessoas, a fazerem “carreiras consecutivas de Setúbal para Tróia e vice-versa, que só terminarão de noite, enquanto existir gente para regressar à cidade”.

Milhares de pessoas rumavam a Tróia para desfrutarem das águas límpidas, frescas e animadas por alforrecas. A Caldeira, a Ponte Verde ou o Bico das Lulas eram nomes nas bocas de todos e muitos destes locais ficavam cobertos de grandes bairros de barracas de praia, feitas de paus e lençóis, em acampamentos populares que, para alguns, se estendiam durante todo o Verão.

O pico da ocupação de Tróia acontecia em Agosto, por ocasião das tradicionais festas em honra de Nossa Senhora do Rosário, que incluem uma procissão marítima até Setúbal, com os barcos dos pescadores engalanados, que ainda hoje se realiza.

No início da década de 70 começaram as restrições ao usufruto por parte do povo, com os primeiros projectos imobiliários a nascerem na península. As construções da Torralta, primeiro grande empreendimento turístico de Tróia, não conseguiram no entanto afastar a população de Setúbal, porque entretanto o 25 de Abril reforçou a liberdade e os direitos.

Já no século XXI, com os novos projectos de grandes grupos turísticos como a Sonae, Pestana e Amorim, que assumiram a exploração privada permitida pelo governo de José Sócrates, Tróia transformou-se definitivamente num destino para turistas e milionários onde os setubalenses praticamente deixaram de ir.