Opinião

Lebres desportivas (1)

O que tinha de correr mal com o desporto aconteceu. Não existe uma visão, nem um programa e impera a dispersão de que tudo é possível.

No Expresso de 10 de Agosto de 2019 Jorge Calado fala da situação da Cultura referindo ‘Como no poema de Pessoa, “Tudo é incerto e derradeiro./ Tudo é disperso, nada é inteiro”’. O estado descrito por Jorge Calado sobre a Cultura é equivalente ao do Desporto, o que realça como os limites críticos são transversais aos sectores sociais e económicos e, ao citar os versos de Fernando Pessoa, diagnostica uma situação crónica que a actual legislatura cumpriu, mais uma vez. Fernando Pessoa e António Calado terminam exclamando que “É a hora!”.

I

Esta foi uma legislatura desportiva triste porque foi nula do ponto de vista da política pública. O desporto tinha uma expectativa real de reforma e ansiava por uma transformação do velho Modelo de Desporto Português que condiciona a produção desportiva dos clubes, associações e federações. O anseio encontra-se na publicação em 2016 pela Federação Portuguesa de Ginástica do livro sobre o Desenvolvimento do Desporto: Gestão, Economia, Regulação, e, em 2017, na concepção pelas federações do projecto Plataforma do Desporto Federado.

O Governo ignorou a expectativa dos clubes, associações e federações e no início da legislatura pôs a circular que não iria governar o desporto porque a geringonça podia cair no dia seguinte. Este tipo de inverdades é recorrente no início das legislaturas à esquerda. O seu objectivo é deixar para o fim a pseudopolítica desportiva com que pretende ganhar as eleições seguintes. O ministério da Presidência e o das Finanças mostraram que não se preocupavam com a saúde da geringonça e tinham ideias consolidadas sobre o Simplex redutor e acerca da austeridade inclemente. O medo da geringonça acabar, podendo ter sido real, foi a mentira habitual para nada fazer no desporto durante os 4 anos seguintes.

O velho Modelo de Desporto Português, que está em vigor, não promove instituições públicas competentes, nem a existência de um líder desportivo reconhecido a nível nacional. O que tinha de correr mal com o desporto aconteceu. Não existe uma visão, nem um programa e impera a dispersão de que tudo é possível. Para suportar o nada fazer da legislatura, o desporto distraiu-se com encenações promovidas na comunicação social.

II

Uma entrevista do primeiro-ministro ao canal televisivo do futebol, em 6 Agosto de 2019, aqui, mostrou o desejo de passar a mensagem de uma legislatura de sucesso no desporto.

Os assuntos abordados foram: a violência das claques e o Benfica, a prática desportiva dos portugueses, a candidatura de Portugal e Espanha à organização do Mundial de Futebol em 2024, a viciação de resultados desportivos e a popularidade da selecção de futebol de mulheres. Observam-se duas preocupações principais de política: a jurisdicionalização através das novas leis que tudo vão resolver em relação à violência das claques, sobre os protestos do Benfica e no combate à fraude dos resultados desportivos; e, a indicação da importância da educação, transporte, turismo, ambiente e saúde na actividade física da população contrapondo que o desporto não é uma actividade física normal.

A jurisdicionalização crescente da política pública é a arma dos governos, que os líderes desportivos aceitam pacificamente. A desconsideração da produção de desporto e do associativismo desportivo como sector nacional tem sido feita pela valorização de outros sectores como o entrevistado profere quando valoriza a educação, transporte, turismo, ambiente e saúde na actividade física, sem os graduar face ao desporto.

Por fim, parece confundir os campeonatos e o conceito universal de desporto enquanto sector formador de mulheres e homens. Questionado sobre a possibilidade da selecção feminina arrastar multidões como a masculina, diz que o importante é o futebol, não é o género. Nenhum líder desportivo lhe terá dito que em Portugal a desigualdade da prática entre homens e mulheres é das maiores a nível europeu. Caso o tivessem dito, o momento jornalístico seria aproveitado para enaltecer o crescimento da prática desportiva das mulheres devido às suas políticas públicas. Naturalmente, não havendo uma política desportiva na legislatura, alicerçada numa ambição e num programa a vários ciclos legislativos e olímpicos, as respostas de senso comum seguiram as perguntas sem as dominar e criar a empatia para os seus programas desportivos, o pretérito e o novo.

Observa-se que o entrevistado foi um homem-só, ele mesmo à flor-da-pele. A sua maior dificuldade esteve no deserto de matérias fundamentais de política desportiva que não se criam no último dia da legislatura e que são maturadas durante os ciclos legislativos como se observa nos países europeus com os melhores indicadores desportivos.

III

A pergunta a fazer é a de saber que parte da responsabilidade do que acontece no desporto cabe aos primeiros-ministros portugueses?

A cultura de política desportiva dos primeiros-ministros portugueses é por norma exígua, tapando a crise do sector com o imediato da comunicação social.

A responsabilidade cabe aos líderes associativos do desporto. Sem uma estrutura de liderança ambiciosa que assuma um novo Modelo de Desporto Português, o sector soçobra e a comunicação das suas políticas pelos primeiros-ministros é banal, falhando a coerência pública, roçando inverdades que a comunicação social credibiliza. Não é assim que se cria uma população desportivamente activa, nem é assim que a juventude se torna campeã para a vida.

Cabe aos dirigentes federados elevarem a política pública desportiva que depois é proclamada pelos responsáveis nos mais altos cargos da nação acerca da qualidade da prática desportiva da população e para a excelência dos grandes atletas nacionais. O fracasso dos líderes federados é o que explica os escândalos que surpreendem um alto magistrado da Nação, como o fenómeno do match-fixing referido na entrevista.

Pela perspectiva horizontal que tem do país sobre os sectores da actividade, todo o primeiro-ministro está ciente da condicionalidade de certos líderes desportivos. Todos sabem, que todos sabem, que o valor das políticas desportivas sendo aparente é a regra do jogo que deve ser jogada. Há muito que o desporto não goza de políticas públicas coerentes com as necessidades dos clubes, associações e federações. As políticas públicas desportivas tornaram-se lebres falsas (2), seja na sua feição jurisdicional, seja na manutenção das coisas do costume.

A população e os mais altos cargos nacionais necessitam de líderes desportivos visionários, competentes e corajosos. Para as federações, associações e clubes desportivos “É a hora!”.

(1) A lebre desportiva é o atleta que logo de início corre à frente de todos os outros. Vai aumentar a velocidade de todos os que acompanhem o seu ritmo. A lebre vai ficar extenuada e sair, quando os restantes se posicionarem para o recorde. A lebre é paga para correr parte da corrida, para aumentar o valor do espectáculo e a derrota está implícita no seu contrato.

(2) Há estratégias de marketing em que a qualidade do produto não corresponde à imagem projectada. Este marketing é uma falsa lebre lançado aos consumidores que os reguladores económicos condenam por extraírem um valor excessivo acerca da qualidade do produto transaccionado.