LUSA/NEIL HALL
Foto
LUSA/NEIL HALL

Megafone

O Reino desunido

Apertem os cintos, o “Brexit” vai agora em fast forward e ninguém sabe muito bem para onde.

Se por um lado o fascínio pela política advém das constantes surpresas com que nos brinda, por outro tal não significa estarmos dispostos e abertos ao proibido e impensável: o fecho do Parlamento aos deputados e à democracia apenas porque sim.

Mas apenas porque sim é uma medida tão válida como tantas outras se o palco é o Reino Unido, a pessoa Boris Johnson e o tema o “Brexit”. Afinal, o Reino Unido é isso mesmo em primeiro lugar, um Reino, e quem manda é o rei ou a rainha, conforme os casos. Mesmo quando os mesmos não querem ser chamados ao barulho, sob pena de represálias futuras, infelizmente inevitáveis num tópico que a todos diz respeito.

O Reino Unido não é uma democracia, ao longo da História tem sido predominantemente conservador e quem manda não é o povo mas sim a nobreza, representada não só por nobres a sério em pleno século XXI mas também por Eton e seus discípulos.

Confesso, no entanto, estar genuinamente preocupado quando um primeiro-ministro decide suspender toda a actividade parlamentar, ergo parar o jogo quando o mesmo não lhe corre de feição. Tal medida não só mostra um mau perder crónico mas também a face de um déspota capaz de tudo, incluindo o tão temido passo em frente agora que o precipício se aproxima.

Será este apenas um jogo por demais perigoso? Será a intenção do primeiro-ministro Johnson negociar um novo acordo em Outubro com a União Europeia e encostar o Parlamento às cordas a duas semanas do Dia das Bruxas e da tão temida saída sem acordo? Se assim é, tal plano já foi levado a cabo pela sua predecessora em Março, à data sem sucesso. E se tal é a sua intenção, desconfio serem cinco semanas um período demasiado longo para levar este objectivo avante.

Desconfio estarem os britânicos já saudosos de Theresa May mais a sua constante busca por consenso e bom senso. Tarde demais. Resta-nos a moção de censura e a certeza de como Corbyn no poder será sempre menos mau que uma saída à bruta e sem acordo.

Até lá, apertem os cintos, o “Brexit” vai agora em fast forward e ninguém sabe muito bem para onde.