Opinião

Mas as crianças, senhor(es)…

E tantas são as vezes em que as crianças vêem e ouvem a sua mãe, ou o seu pai, insultado, vexado, humilhado ou acusado, apenas porque esse outro pai ou essa outra mãe, com quem, em tempos, formaram um casal, não conseguem digerir a mágoa, a frustração e o ódio, que os corroem por dentro e lhes aguçam um desejo de vingança.

Em modo verão, sentada à porta de um restaurante, estão junto a mim uma mãe, na casa dos trinta, e a sua filha, uma menina bonita e risonha, que não terá mais de quatro anos.

Enquanto a criança brinca num canteiro de flores, a mãe, sentada à sombra e concentrada no telemóvel, protesta, num tom de voz propositadamente elevado, manifestamente contrariada e dirigindo-se à filha, por não conseguir encontrar as fotografias que o “estúpido” do pai da menina lhe deveria ter enviado.

Em resposta, a criança limita-se a encolher os ombros e continua a sua brincadeira por entre as flores.

Mas a mãe persiste no ataque ao progenitor da pequena criatura, alardeando, no mesmo tom elevado e irritado, a sua “incompetência e inutilidade”, presume-se que habituais e expectáveis, mas que, ainda assim, a privariam, neste caso concreto, de “postar”, orgulhosa, no seu Facebook, as fotografias da criança.

Depois de novo encolher de ombros, face à vívida e ilustrativa descrição da certificada incapacidade paterna, a menina decide abraçar a mãe, talvez numa tentativa de a confortar, perante essa terrível agrura, que há-de constituir a ausência de material, para actualização das redes sociais.

Em reacção ao ternurento e espontâneo abraço, a mãe dispara a pergunta: “O que é tu queres, para estares a agarrar-te a mim, dessa maneira?”.

Resposta imediata da criança, mantendo a ternura no sorriso: “Quero a mãe!”.

E esta, numa sublime lição de afecto, afirma, convicta e categórica, “Se queres a mãe, é porque te zangaste com o teu pai ontem! Conta lá o que é que o teu pai te fez!”.

 A criança nega, abanando a cabeça e mantendo a expressão risonha, a existência de qualquer descontentamento, zanga ou maus-tratos, mas a mãe, seguramente apoiada na sua intuição feminina, ou, em alternativa, nesse sempre infalível vínculo umbilical, insiste: “Vá, conta lá o que é que o pai te fez de mal, nesta semana!”...

E tantas são as vezes que se repetem estas conversas!

E tantas são as vezes em que as crianças vêem e ouvem a sua mãe, ou o seu pai, insultado, vexado, humilhado ou acusado, apenas porque esse outro pai ou essa outra mãe, com quem, em tempos, formaram um casal, não conseguem digerir a mágoa, a frustração e o ódio, que os corroem por dentro e lhes aguçam um desejo de vingança, em que as crianças são escolhidas como as armas ideais, porque, afinal, são as que atacam o outro no seu ponto mais vulnerável.

Talvez esqueçam (ou ignorem, ou desvalorizem, ou não queiram saber…) que esta mágoa, esta frustração e este ódio acabarão por contaminar os filhos, tornando-os pessoas frágeis, descrentes, desconfiadas, tristes e vazias de afecto.

E há uma geração a crescer assim!

Uma geração de crianças e jovens que estão em risco: um risco imenso e imensamente violento, porque é vivido em privado, porque é de difícil escrutínio e, em consequência, de difícil sinalização e protecção.

Um risco cujas marcas são lentas e potencialmente invisíveis, camufladas em silêncio, caladas em vergonha, escondidas em (e a) medo.

E se outras marcas não deixar esse risco, ele deixará, inevitavelmente, a marca do desamor. E este sim é triste... muito mais triste do que o tal pretérito fim de um amor, que à custa dos filhos, se pretende vingar.

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