Editorial

Elisa, o poder da competência

Sabermos que a escolha para um alto cargo europeu dependeu de uma escolha pelo mérito e não pelos favores partidários (mesmo que Elisa seja próximo do PS) é uma notícia rara. E boa.

Mal se soube da escolha de Elisa Ferreira para a Comissão Europeia, praticamente todo o centro político veio a público manifestar a sua aprovação. “Do ponto de vista político e técnico, Elisa Ferreira tem um nível de qualificações único e excepcional”, disse Mário Centeno; “Experiente, competente e com rede europeia”, notou Paulo Rangel; “Estou muito contente por passar o testemunho a Elisa Ferreira”, sublinhou Carlos Moedas; “Uma boa escolha”, condescendeu Rui Rio; e até Nuno Melo, conhecido pela sua aspereza, abdicou da oposição exaltada e lá deixou os “parabéns” à nova comissária europeia. Neste coro de elogios e aplausos, só não entraram o Bloco e o PCP. E, muito provavelmente, os sectores do PS que acreditaram na possibilidade de Pedro Marques chegar à Comissão.

Na aparência, pode acreditar-se que a troca de Pedro Marques por Elisa Ferreira acontece por culpa de Ursula von der Leyen, quando exigiu que os países apresentassem uma candidatura paritária. Esta perspectiva da opção acidental não colhe. Houve países que insistiram em apresentar apenas um nome, de homem ou de mulher.

António Costa entrou no jogo da paridade, mas não seguiu o plano que tinha (ou pelo menos, que deixou circular sem contestação) na altura das eleições para o Parlamento Europeu – Pedro Marques seria o eleito. Porque percebeu que, para reforçar a sua estratégia e a estratégia nacional em Bruxelas, precisava de apostar mais forte. Pedro Marques seria mais um entre os 28; Elisa Ferreira será um dos mais importantes entre os 28. O que faz toda a diferença.

Faz pouco sentido questionar se os procedimentos do primeiro-ministro e do PS para com o cabeça-de-lista às europeias foram ou não lisos. Muito provavelmente Marques tem capital de queixa. Talvez haja em todo este processo promessas não cumpridas ou expectativas defraudadas. Costa, porém, passará incólume a qualquer queixa. Porque fez a escolha que melhor configura a defesa da posição estratégica de Portugal na Europa. Entre os protegidos do partido e a defesa do interesse nacional, não pode haver hesitação.

Inteligente, dona da sua própria cabeça, estudiosa, competente, com um fortíssimo pendor executivo e uma carreira notável, Elisa, a directora por um dia do PÚBLICO este ano, é hoje um dos poucos altos-quadros do país com autoridade e mérito indiscutíveis para o lugar que vai ocupar. O reconhecimento das suas qualidades pela Oposição confirma o mérito da sua escolha e permite a António Costa reparar a parte do seu capital eleitoral minada pela crise dos primos. Sabermos que a escolha para um alto cargo europeu dependeu de uma escolha pelo mérito e não pelos favores partidários (mesmo que Elisa seja próximo do PS) é uma notícia rara. E boa.