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“Você sabe com quem está falando?”

Lilia Moritz Schwarcz escreve um livro fundamental para compreender o fenónemo Bolsonaro: Sobre o autoritarismo brasileiro.

Jair Bolsonaro fazendo o gesto das pistolas com os dedos
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Jair Bolsonaro fazendo o gesto das pistolas com os dedos Antonio Lacerda/LUSA

Um país colonizado com violência, escravocrata, baseado numa história de miscigenação harmoniosa entre brancos, negros e indígenas que nunca existiu além do mito fundador criado por Karl von Martius, vencedor do concurso instaurado por D. Pedro I para uma nova historiografia brasileira, acabou por se tornar no Brasil desigual, violento e racista da actualidade.

Lilia Moritz Schwarcz escreveu Sobre o autoritarismo brasileiro para nos ajudar a entender que Jair Bolsonaro não surgiu do nada, não emergiu de surpresa de uma conjuntura inexplicável de factores, antes é espelho fiel de um país racista e violento. Maior excepção à regra foi a eleição de Lula da Silva e as suas políticas de combate à desigualdade.

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O bolsonarismo reflecte o país que forjou ao longo da história essa pergunta que, segundo o antropólogo Roberto DaMatta, resume a existência de dois Brasis, o dos poucos privilegiados e o da maioria de desafortunados: “Você sabe com quem está falando?”

“A escravidão nos legou uma sociedade autoritária, a qual tratamos de reproduzir em termos modernos. Uma sociedade acostumada com hierarquias de mando, que usa de uma determinada história mítica do passado para justificar o presente, e que lida muito mal com a ideia da igualdade na divisão de deveres, mas dos direitos também”, escreve a autora, professora de Antropologia na Universidade de São Paulo, co-autora com Heloísa Murgel Sterling de Brasil: Uma Biografia.

Uma república de alicerces instáveis pela erosão do “patrimonialismo” (a apropriação privada dos bens do Estado) e da corrupção, resulta numa democracia frágil, “onde a concentração da riqueza, a manutenção dos velhos caciques regionais, bem como o surgimento dos ‘novos coronéis’ e o fortalecimento de políticos corporativos mostram como é ainda corriqueiro no Brasil lutar, primeiro, e antes de mais nada, pelo benefício privado”.