Polícia grega entra em bairro anarquista e despeja 143 refugiados

Exarchia é conhecido por ser o bastião do movimento anarquista grego em Atenas, refúgio para refugiados e imigrantes e por ser local de confrontos com a polícia.

O primeiro-ministro grego prometeu avançar contra o bairro anarquista e fê-lo esta segunda-feira
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O primeiro-ministro grego prometeu avançar contra o bairro anarquista e fê-lo esta segunda-feira YANNIS KOLESIDIS/LUSA

O bairro anarquista de Exarchia, em Atenas, foi alvo de uma operação policial de grande escala para impor a “ordem”, cumprindo uma promessa de campanha eleitoral do primeiro-ministro conservador Kyriakos Mitsotakis. As autoridades despejaram 143 refugiados de casas ocupadas e detiveram três pessoas.

Com um helicóptero no ar, a polícia entrou no bairro com um forte dispositivo de segurança, entre os quais a polícia antimotim e elementos dos serviços secretos. O objectivo era repor a “ordem” num bairro onde repetidamente acontecem confrontos com a polícia e onde esta não entra, excepto em grandes operações. Mantém-se nas proximidades do bairro, onde entra em confrontos com os anarquistas, que lhe atiram cocktails molotov. Em respostarecebem gás lacrimogéneo. 

Dos 143 refugiados despejados, 57 são homens, 51 mulheres e os restantes crianças. Serão agora transferidos para campos de refugiados. São provenientes do Afeganistão, Eritreia, Irão e Iraque. Os detidos foram dois cidadãos gregos e um francês, entre os 50 e 60 anos, tendo-se registado alguns desacatos pontuais com a polícia.

“As operações vão continuar com a mesma ou até maior intensidade, até que a máfia da droga que opera na área seja desmantelada”, disse uma fonte do Ministério da Protecção dos Cidadãos, sob anonimato, ao jornal Kathimerini. A polícia não encontrou resistência porque a maioria dos anarquistas estão de férias, fora de Exarchia. 

A contar com a de segunda-feira, esta é a sétima operação policial no bairro desde que Mitsotakis é primeiro-ministro. Nas anteriores, diz o Kathimerini, a polícia cercou o bairro e revistou quem por lá passava e vive, acabando por deter 17 pessoas por posse de droga e imigração ilegal. As autoridades querem começar, aos poucos, a manter uma presença constante nas ruas. 

Resistência e solidariedade

O bairro tornou-se conhecido por ser o principal bastião do movimento anarquista grego, o maior na Europa, e o centro da vida intelectual de esquerda e dos movimentos anti-austeridade em Atenas nos anos de intervenção financeira externa. Com a crise dos refugiados no Mediterrâneo, a partir de 2015, o movimento anarquista auto-organizou-se para lhe dar resposta, ora criando redes de solidariedade, ora ocupando casas para dar guarida aos refugiados, para não ficarem em campo aberto ou em centros de detenção. Essas mesmas casas também deram respostas sociais à população grega durante os anos de crise económico-financeira e de austeridade. 

“As ocupações oferecem uma alternativa viável aos campos de refugiados e centros de detenção, onde as condições foram amplamente condenadas por observadores internacionais”, escreveu o Guardian.

A primeira casa ocupada dedicada ao acolhimento de refugiados nasceu pouco depois da crise dos refugiados e chama-se Notara 26, mas depressa se seguiram outras. Hoje, das 23 casas ocupadas, 12 têm a finalidade de acolher quem foge da guerra e da miséria arriscando a vida na travessia do Mediterrâneo, segundo o Greek Reporter. Há ainda outras 26 casas ocupadas nas proximidades do bairro, num total de 49 que funcionam em redes.

Mitsotakis prometeu na campanha eleitoral impor “ordem” no bairro e o recém-eleito presidente da câmara de Atenas, Kostas Bakoyannis, definiu-o como prioridade de segurança para o seu mandato. O líder do executivo camarário acusou o anterior Governo, liderado por Alexis Tsipras, do Syriza, de ser suave no combate ao vandalismo levado a cabo por grupos anarquistas.

Num país onde a extrema-direita se tornou conhecida por perseguir refugiados e imigrantes, a postura anti-racista dos residentes do bairro, diz o Guardian transformou-o num espaço de segurança para quem não nasceu na Grécia. “Sou tão feliz aqui, sinto-me seguro”, disse um residente de nacionalidade afegã ao jornal britânico. “Aqui trabalhamos todos juntos e temos uma boa vida”, resumiu.

A acção desta segunda-feira foi encarada pelo movimento anarquista como declaração de guerra do novo executivo grego. “Estão-se a preparar reacções, assim como vários eventos de mobilização importantes. O Outono será caloroso em Atenas”, avisa a página de Facebook Agência de Notícias Anarquista, com fortes ligações ao movimento anti-autoritário grego. Está já marcada uma concentração em frente à Universidade de Atenas para 14 de Setembro. 

O bairro surgiu nas manchetes de jornais internacionais por ter sido o epicentro de dois meses de motins por todo o país, entre Dezembro e Janeiro de 2008, depois do assassinato de um jovem anarquista, Alexis Grigoropoulos, de 15 anos, às mãos de dois polícias em Exarchia.

Os protestos começaram no bairro, mas, em poucos dias, propagaram-se a todo o país, transformando-se em revolta generalizada contra a violência da polícia e falta de oportunidades de vida. Milhares de jovens saíram à rua e por lá permaneceram durante semanas, atirando cocktails molotov, queimando caixotes do lixo e carros e ateando fogo a prédios inteiros. A sociedade ficou em choque e a polícia teve grandes dificuldades em controlar os motins. Na altura, o jornal Kathimerini caracterizou a revolta como a “pior na Grécia desde a restauração da democracia em 1974”.