daniel rocha
Foto
daniel rocha

Veterinários municipais alertam para números “absurdos” de animais abandonados

Municípios teriam de construir “dois ou três canis todos os anos” para dar resposta às necessidades, alerta médico veterinário.

A Associação Nacional de Médicos Veterinários dos Municípios (Anvetem) alertou, esta segunda-feira, para os números “absurdos” de animais que são recolhidos das ruas em Portugal pelos centros de recolha oficiais, chegando a atingir cerca de 50 mil por ano.

“Expectamos que esses números estão perto dos 50 mil recolhidos em centros de recolha oficiais”, sem contar com as associações, disse à agência Lusa Ricardo Lobo, membro da direcção da Associação Nacional de Médicos Veterinários dos Municípios, segundo o qual, em 2017 e 2018, o número de animais recolhidos pelos centros de recolha oficiais (CRO) rondou os 41 mil e os 36 mil, respectivamente. O número de adopções atinge os 17 mil animais, anualmente. “O número de animais abandonados, e que nos é solicitada a recolha, continua a um nível perfeitamente absurdo, é por isso que os canis não conseguem recolher”, disse Ricardo Lobo à agência Lusa.

No entanto, o médico veterinário explicou que a solução não passa pela “construção infinita” de canis, uma vez que o país não está preparado para suportar os custos. “Além de comportar um custo que o país não está preparado para suportar, não faz qualquer sentido […]”, precisou o veterinário, adiantando que cada município teria de construir “dois ou três canis todos os anos”, para albergar todos os animais abandonados.

Recordando as políticas de esterilização que as autarquias estão a implementar com o fundo da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), Ricardo Lobo considerou que o combate ao aumento de animais errantes parte de uma regulamentação e de educar as pessoas, o que, segundo o mesmo, demorará muito tempo a acontecer. “Isto é um trabalho que não pode ser feito em meses, nem em dois, nem em três anos. Necessita de ser feito com a convergência de muitos esforços, de muitas políticas e de muitas acções de sensibilização, que surtiria algum efeito daqui a bastantes anos: dez, no máximo”, frisou.

Para o responsável, actualmente as pessoas têm animais sem estar preparadas para os ter, não tendo “condições económicas para fazer frente às despesas do veterinário”, o que potencia o abandono dos mesmos. “Temos uma falta de educação geral para aquilo que é a obtenção de animais de companhia”, sublinhou, reiterando a necessidade da criação de leis de fiscalização, punição e sensibilização.

Segundo o médico veterinário, é possível “mudar mentalidades” através de acções de sensibilização nas escolas. “Podemos mudar mentalidades. Podemos mudar a percepção que as crianças têm daquilo que é ter um animal de companhia, para elas não terem de pressionar os pais a adquirirem um animal de companhia sem estes terem as devidas condições”, afirmou.

Apesar de tudo, Ricardo Lobo perspectiva o futuro com alguma “apreensão”, por causa da acumulação de cães nas ruas, podendo transmitir doenças e atacar as pessoas. “Eu vejo com alguma apreensão aquilo que o futuro nos espera relativamente à protecção das pessoas. Além disso, há outros problemas: animais nas ruas são propensos a transmitir doenças”, recordou o responsável, alertando para a vacinação de todos os animais, de forma a estagnar a propensão de doenças como a raiva, existente no “Norte de África e no Magreb”.