Em todo o mundo, existem menos de 50 chitas-asiáticas. Todos os animais encontram-se no Irão
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Em todo o mundo, existem menos de 50 chitas-asiáticas. Todos os animais encontram-se no Irão Caren Firouz/Reuters

Investigadores detidos no Irão acusados de espionagem podem enfrentar pena de morte

Grupo de oito ambientalistas foi acusado pelo Governo de recolher informações militares classificadas com câmaras usadas para monitorizar chitas-asiáticas. Organizações acusam país de criminalizar investigações científicas.

Em Janeiro de 2018, um grupo de nove conservacionistas que estudava a população de chitas-asiáticas foi detido no Irão. As autoridades iranianas acusavam o grupo de ter recolhido informações militares sensíveis com o material fornecido para a monitorização destes animais. Quatro investigadores podem vir a ser condenados à morte e outros quatro sentenciados a uma pena de prisão até dez anos. Kavous Seyed-Emami, outro dos investigadores detidos, morreu na prisão, pouco tempo após ter dado entrada no estabelecimento prisional. A decisão de encarcerar preventivamente os ambientalistas foi duramente criticada pela comunidade internacional, que acusa o país de criminalizar iniciativas científicas.

A pesquisa promovida pelos investigadores era ambiciosa — e relevante. Em todo o mundo, existem menos de 50 chitas-asiáticas. Todos os animais desta subespécie (Acinonyx jubatus venaticus) podem ser encontrados no Irão, onde os números têm diminuído ano após ano. Os conservacionistas iranianos traçaram um objectivo para o seu trabalho: seguir com detalhe as movimentações da população de chitas-asiáticas, no sentido de evitar a diminuição do já reduzido número destes animais — e identificar formas de reverter esse decréscimo.

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Poster com as fotografias dos oito investigadores detidos Human Rights Watch

Este acompanhamento seria realizado pelos investigadores da Fundação para o Património da Vida Selvagem Persa (PWHF, na sigla inglesa), em colaboração com o Governo iraniano. O grupo de ambientalistas conseguiu assegurar as licenças necessárias junto das entidades governamentais competentes.

O equipamento — que consistia em “armadilhas fotográficas” — e fundos para o funcionamento do projecto foram providenciados por parceiros estrangeiros. Os cientistas colocariam câmaras sensíveis ao movimento e calor corporal. O objectivo seria capturar fotografias destes animais em pontos estratégicos, tais como zonas de caça.

Em Janeiro de 2018 ocorreram as primeiras detenções, motivadas pela suspeita da Guarda Revolucionária Iraniana de que os aparelhos anteriormente referidos teriam sido usados pelos investigadores para recolher informações militares classificadas. Os quatro membros do grupo que podem vir a enfrentar a pena de morte são acusados de corrupção. Os restantes não estão sujeitos à pena capital, mas podem receber uma sentença até dez anos. Kavous Seyed-Emami morreu pouco tempo depois da sua detenção. O Washington Post escreve que o procurador de Teerão, Ali Alghasi-Mehr, terá alegado que o conservacionista teria cometido suicídio na prisão, algo que os familiares e colegas contestam.

Um documento citado pela National Geographic mostra que, ainda antes de terem conhecimento das intenções das autoridades iranianas, os nove investigadores mostravam alguma inquietação quanto à sua segurança. O líder de uma das organizações que colaboravam directamente neste projecto — a Panthera — criticou directamente o regime iraniano. O filantropo multimilionário Thomas Kaplan defende o isolamento económico do Irão como forma de forçar o processo de desnuclearização. Pelo facto de estarem ligados a uma organização crítica ao Governo, os conservacionistas temiam que pudessem existir represálias. 

A primatóloga Jane Goodall e outros 350 cientistas assinaram uma carta endereçada ao Guia Supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, a protestar contra a detenção dos investigadores. "Estamos chocados pelo facto do ramo neutro do conservacionismo alguma vez possa ser usado para a obtenção de objectivos políticos. Nós, enquanto comunidade, condenamos veementemente isso, e acreditamos que os nossos colegas não desempenharam esse papel”, podia ler-se na carta.

Duas agências governamentais supervisionadas pelo Presidente do Irão, Hassan Rouhani, ilibaram os investigadores de qualquer crime, numa investigação espoletada pela morte de Kavous Seyed-Emami. O veredicto favorável, porém, não se traduziu na libertação dos conservacionistas que ainda aguardam desenvolvimentos do caso em prisão preventiva. 

No início do mês de Agosto, a organização de defesa dos direitos humanos  Humans Rights Watch avançou que dois dos oito investigadores iriam começar uma greve de fome, em protesto contra a detenção.