Opinião

As gémeas da Amadora: os 10 anos que não se recuperam

O que é grave no caso das gémeas é a facilidade com que se perde o rasto de duas crianças em perigo, quando o que sabemos até agora deixa claro que esta família se cruzou várias vezes com instituições que tinham obrigação de não as perder de vista.

Num famoso debate parlamentar em 2014, o então vice-primeiro-ministro Paulo Portas falou de casos de pessoas que beneficiavam do Rendimento Social de Inserção tendo mais de 100 mil euros no banco. Não disse quantas pessoas eram, mas conhecendo o baixo nível de poupança das famílias portuguesas, deviam contar-se pelos dedos de uma mão. Vem isto a propósito do caso das gémeas da Amadora que veio a lume durante esta semana. O Correio da Manhã noticiou que os pais das gémeas nunca pediram qualquer apoio social, nem apresentaram candidatura a habitação municipal. Embora o tipo de “abuso” de que falou Portas em 2014 seja mais sexy para o prime time noticioso, a verdade é que as políticas sociais padecem – provavelmente, em maior dimensão – do problema inverso: as pessoas não beneficiarem dos apoios que o sistema desenhou para elas.