Editorial

O sectarismo e o desastre da Amazónia

Tenha Bolsonaro toda, muita ou apenas alguma responsabilidade pelo fogo, ele pensa como pensa, disse o que disse e aconteceu o que aconteceu.

floresta amazônica
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Reuters/NASA

O sectarismo que se vai instalando na oposição entre visões de direita e de esquerda está a chegar a extremos tão perturbantes que é quase impossível ter uma discussão séria sobre ameaças colectivas como a destruição da Amazónia – ou em muitas outras causas comuns. Quando a NASA ou o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia nos mostram o disparo alarmante da área roubada à floresta ou das queimadas que lhe sucedem, logo os partizan de uma e de outra barricada se eriçam para apagar esta evidência e desmontar os factos com teorias da conspiração ou crendices infantis. Será assim tão difícil reconhecer que não, que o problema da desmatação da Amazónia não começou com Jair Bolsonaro e que sim, desde que Bolsonaro está no poder que a desmatação atingiu o ritmo mais alto em muitos anos? Poderá haver um pouco de consenso no reconhecimento da realidade para que depois cada um a possa interpretar de acordo com a sua visão do mundo, a sua ideologia, religião, ou o que seja?

Estamos no domínio do sectarismo típico das claques de futebol. Para esquerda intolerante e radical, a tragédia da maior, mais importante e mais bela floresta do mundo é nem mais nem menos que a prova dos horrores da direita representada por Bolsonaro; para a direita enquistada e extremista, a devastação causada pelo fogo é apenas uma invenção dos ecologistas radicais ou da esquerda ortodoxa, porque a floresta sempre ardeu, está a arder nos países vizinhos e tudo não passa de uma orquestração para minar o Presidente. O fogo apenas pode ser preto ou branco, tem de servir uma causa e matar a causa do adversário. Se for preciso mentir com fotografias falsas de incêndios ou de animais mortos por atropelamento e não pelo fogo, como aconteceu repetidamente esta quinta-feira, pois que assim seja.

Custa ver pessoas de direita a não reconhecer as barbaridades de Bolsonaro e a sua responsabilidade política pelo encorajamento que deu à aceleração da destruição da Amazónia, como ver pessoas de esquerda a tolerarem o regime ditatorial de Maduro. Lutar para que os democratas à esquerda e à direita não desistam da racionalidade e não caiam nas barricadas do sectarismo e da intransigência tornou-se um dos grandes desafios do nosso tempo. Tenha Bolsonaro toda, muita ou apenas alguma responsabilidade pelo fogo, ele pensa como pensa, disse o que disse e aconteceu o que aconteceu. Só reconhecendo esta evidência sem a atribuir a uma invenção do “inimigo” será possível dar conta de que a Amazónia é a reserva da biosfera da qual uns e outros, à esquerda ou à direita, dependem para viver.