Macron recusa renegociar o “Brexit” e só pensa em aprofundar a velha amizade com o Reino Unido

O tom optimista de Berlim sobre a possibilidade de arranjar alternativa ao backstop foi trocado pela perspectiva pragmática em Paris. Johnson insistiu que ainda há tempo para o acordo, mas também acha que esta é a continuação de uma bela amizade.

Boris Johnson e Emmanuel Macron a caminho do almoço depois da conferência de imprensa
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Boris Johnson e Emmanuel Macron a caminho do almoço depois da conferência de imprensa GONZALO FUENTES/Reuters

“Vamos aprofundar a relação já ao almoço”, disse Boris Johnson esta quinta-feira em Paris, ao ser recebido no Palácio do Eliseu pelo Presidente francês, Emmanuel Macron. Ao contrário do tom optimista de quarta-feira na Alemanha, quando Angela Merkel se mostrou aberta a uma negociação sobre uma alternativa ao backstop na fronteira irlandesa, em França, o primeiro-ministro britânico encontrou a porta fechada e centrou-se na relação bilateral como ponto mais importante da agenda.

“O backstop é uma garantia indispensável para manter a estabilidade na Irlanda e a integridade do mercado único”, afirmou Macron na conferência de imprensa conjunta antes do encontro entre os dois políticos. “A minha posição é clara”, sublinhou o chefe de Estado francês, como se houvesse alguma dúvida da sua intransigência a reabrir as negociações sobre o “Brexit”.

Macron disse que para “proteger e reforçar o projecto europeu” e “construir uma União Europeia mais forte” é preciso ser inflexível em abrir mão de uma salvaguarda tão significativa como a que o acordo impõe na fronteira entre a Irlanda do Norte, para impedir que o Reino Unido venha a introduzir no futuro uma fronteira física entre a República da Irlanda (país independente e membro da UE) e a Irlanda do Norte (parte integrante do Reino Unido).

“Respeito a soberania do eleitor britânico; tenho pena, se fosse eu não votaria assim, mas respeito”, afirmou Macron sobre o referendo de Junho de 2016 que decidiu a saída do Reino Unido da UE, mas agora a “responsabilidade” passa por “estar pronto para a saída sem acordo”.

Nesse aspecto, Boris Johnson voltou a dizer, como afirmou em Berlim, que o Governo britânico não quer impor nenhuma fronteira física na Irlanda: “Quero um acordo e penso que podemos ter um acordo” e aproveitou as palavras de Macron para justificar a saída do Reino Unido da UE como “vital para a confiança” das pessoas nas instituições democráticas.

Sem hipótese de sair de duas posições antagónicas, tanto o Presidente francês como o primeiro-ministro britânico se centraram em enfatizar a relação muito próxima entre os países – “uma relação privilegiada, histórica, profunda”, como lhe chamou Macron, e que irá continuar no futuro pós-“Brexit”.

Vamos levar “esta relação para a frente”, garantiu Boris Johnson, que deu exemplos do que já hoje existe da indústria de cada um dos países a funcionar no outro, como os autocarros franceses usados nos transportes públicos britânicos e o aço de Scunthorpe nos TGV franceses.

Os dois países que construíram em conjunto o primeiro avião supersónico de passageiros (Concorde) e o túnel sob o canal da Mancha mantêm uma relação muito próxima e querem preservar essa relação depois de 31 de Outubro, disse Johnson, e nada melhor do que começar já a aprofundá-la.