Opinião

José Afonso, um património inestimável que traz outros músicos também

Num ano em que José Afonso “foi” até ao Brasil, com Vinicius e o notável Estrada Branca, a classificação da sua obra pode abrir portas a uma valorização da música popular.

Tudo começou por uma inquietação: não se saber onde param as masters originais das gravações de José Afonso, devido à falência da empresa que as detinha. E daí até à petição foi um pulo: em pouco tempo, o pedido para que a obra de José Afonso fosse considerada e classificada como de “interesse nacional” foi entregue a 2 de Agosto no Ministério da Cultura e reuniu, até ao fecho, um total de 11.618 assinaturas. Missão cumprida? Em parte. Porque, continuando as masters por encontrar, e dizendo a ministra Graça Fonseca que para a classificação da obra é “preciso ter acesso às masters e ao seu conteúdo”, isto criou um problema novo: a inexistência de instrumentos que, como disse o etnomusicólogo Pedro Félix (do Arquivo Nacional do Som) na conferência de imprensa que se seguiu à entrega da petição, “permitam com rigor classificar este património.”

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José Afonso fotografado para o disco Com as Minhas Tamanquinhas (1976)

E não existe ainda porquê? Porque, disse, as entidades envolvidas ainda estão a trabalhar neles. Só que, em paralelo a tais considerações, veio a público o ex-secretário de Estado da Cultura José Barreto Xavier adiantar outra sugestão: a classificação da obra de José Afonso como património imaterial porque, no seu conjunto, ela será “do domínio do intangível”. Então, com ou sem as tão procuradas masters, haveria, segundo ele, “cabimento para que se avance com um processo no sentido da sua inventariação e classificação como património cultural imaterial”. Curiosa, esta dupla via: enquanto a classificação da obra de José Afonso como Património Material Móvel, que dependerá do acesso aos materiais, inicia o seu curso (com envolvimento do Governo, da família do cantor e da Associação José Afonso), a sugestão de a classificar como Património Cultural Imaterial acaba por também insinuar uma modificação legislativa. Para o primeiro, estudam-se “instrumentos” de classificação; para o segundo, sugere Barreto Xavier, deveriam os serviços da Direcção-Geral do Património Cultural ‘abrir’ o sentido interpretativo do diploma de classificação de património cultural imaterial”, não se limitando à noção “tradicional” dos critérios da UNESCO.

Nos dois casos, tais classificações, revistas a uma nova luz, poderão abrir portas a uma valorização da música popular, tendo em conta a riqueza da escrita e da composição de vários autores, músicos e poetas a ela ligados. E não só da música, já que Barreto Xavier sugere que, no caso do património imaterial, “tal procedimento também seria possível, por exemplo, para a obra de Fernão Mendes Pinto e da literatura de viagens do século XVI, de Fernando Pessoa e da geração do primeiro Modernismo literário, de Lourdes de Castro e do grupo de artistas visuais KWY na década de 60”.

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Capas dos LP Estrada Branca (2019) e Vinicius & Odette Lara (1963, reeditado em 2019)

Disto tratará o futuro, esperemos que a breve prazo. No presente, a música continua felizmente viva e, no que diz respeito a José Afonso (cujos 90 anos do nascimento foram celebrados com concertos, exposições e palestras), para além do lançamento do álbum José Afonso Ao Vivo (que reúne gravações inéditas de 1968 e 1980, com textos de Adelino Gomes e edição da Tradisom), assistimos a uma nova, e bem-sucedida, aproximação de José Afonso ao Brasil, no projecto Estrada Branca, onde a obra do músico português se cruza com a de Vinicius de Moraes. Com concertos em Lisboa, Porto e Alentejo (a “despedida”, até ver, foi na Fábrica Braço de Prata), o projecto junta as artes musicais dos brasileiros Mônica Salmaso, Nelson Ayres e Teco Cardoso à dos portugueses José Pedro Gil e Emanuel de Andrade, com arranjos para vozes, pianos, flauta e quarteto de cordas. A escolha do repertório foi de Carlos Tê, que estudou a fundo o percurso de Zeca e Vinicius, e a cenografia foi do arquitecto Manuel Aires Mateus. Deste encontro, feliz e profundamente sentido pelos que o ouviram ou nele participaram, ficou um LP duplo que replica, na capa, a estética gráfica dos discos da bossa nova. Basta compará-la com a do primeiro disco a solo de Vinicius de Moraes (com Odette Lara), com selo da Elenco, também reeditado há pouco entre nós, em vinil, e que vivamente se aconselha. Foi publicado no Brasil, em 1963, o mesmo ano em que José Afonso lançava em Portugal um EP com Os vampiros e Menino do Bairro Negro, que, não estando no disco do projecto Estrada Branca, foi cantado ao vivo por Mônica Salmaso e José Pedro Gil nos palcos de Portugal.

Se as classificações patrimoniais seguirem a música, hão-de voar alto, como só ela sabe e faz.