Crítica

E ao sétimo dia, Chance cantou

Mau grado alguns erros de casting, The Big Day é um belo disco de um dos mais criativos músicos americanos contemporâneos.

<i>The Big Day</i> reflecte um homem num momento positivo, assaz esperançoso e, como já lhe é característico, bem-humorado
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The Big Day reflecte um homem num momento positivo, assaz esperançoso e, como já lhe é característico, bem-humorado

O fenómeno em redor de The Big Day é ilustrativo do estupidificante modo como a “socialidade em rede” opera no campo da música. De repente, o “grande dia” pelo qual tantos “fãs” salivavam transformou-se numa longa noite de pesadelo. Que o álbum era um flop, que a montanha pariu um rato – afinal, Chance The Rapper já não era o “melhor rapper do mundo”. A coisa ganhou contornos especialmente idiotas, e por culpa do próprio: o americano decidiu vir a terreiro – através de uma plataforma pródiga em micro-conjuntos de caracteres pejados de patetices – chorar sobre o sucedido, numa confrangedora auto-comiseração em praça pública que, capaz de suscitar compaixão num primeiro momento, transitou para o domínio da chamada vergonha alheia. Algumas das pérolas: “I’m getting this crazy feeling that people want me to kill myself”; “Some people want me to feel ashamed. Feeling shame for something that you were once prideful about is super heavy”; “So for anybody out there thats texted me the past few days, I appreciate you. And I wanna let some of these feelings go cause thats whats twitter is for. For people to say exactly whats on their hearts”.