Nelson Garrido
Foto
Nelson Garrido

Megafone

Já ninguém tira férias em Agosto

Os amigos? Estão todos a trabalhar, já estivemos com alguns mas muitos estão ainda por ver. A família? Só os mais velhos, já reformados, estão disponíveis e todos os outros ocupados nos empregos de sempre.

31 de Julho e 1 de Agosto são dias proibitivos para andar na estrada. As razões são óbvias: começam as férias estivais e os portugueses metem-se a caminho, uns do Algarve, outros da terra, bloqueando todas as veias, artérias e capilares deste país, para fora das cidades à procura do merecido, desejado e há muito esperado descanso. Oxalá houvesse mais.

31 de Julho e 1 de Agosto eram dias proibitivos para andar na estrada. As razões, óbvias, já não o são mais. Diante de nós o espanto das auto-estradas esvaídas de veraneantes onde se contam pelos dedos de uma mão em pleno começo de Agosto os carros cheios até ao topo de sol e calor.

Estamos por nossa conta e não percebemos porquê. Cometemos a asneira de viajar a 31 de Julho e nada, nem asneira nem carros e o caminho todo por desbravar até chegar a tua casa, mais ou menos 24 horas antes de efectuar igual caminho no sentido inverso, desta vez com os teus pais até à praia, igualmente sós no meio de um país onde já ninguém vai para férias.

15 de Agosto, feriado, as estradas enchem-se de carros e a praia de gente como até então não se tinha visto. Se na praia já não temos onde estender a toalha, desenganem-se os que pensam ser esta a realidade nos dias a seguir, ou não estivesse a praia outra vez por nossa conta como tem sido dia após dia desde o começo das férias.

Os amigos? Estão todos a trabalhar, já estivemos com alguns mas muitos estão ainda por ver. A família? Só os mais velhos, já reformados, estão disponíveis e todos os outros ocupados nos empregos de sempre. Agora multipliquemos esta realidade por 10 milhões e assim estamos como nação em praias onde se ouvem todas as línguas do mundo menos a nossa, excepção feita aos emigrantes que ainda regressam ao mar que os viu nascer.

Destituídos de direitos ainda por recuperar desde os tempos da crise e vítimas desta nova modalidade de trabalho onde já ninguém tem contrato, todos são colaboradores e as chefias é que lucram, os portugueses já não vão para férias em Agosto, nem na primeira quinzena, nem na segunda quinzena nem nunca. Tirar 15 dias seguidos tornou-se proibitivo para as empresas num país cada vez mais virado para o turismo, turismo esse cujo pico coincide com o período estival.

Quando muito, tira-se uma semana aqui e outra ali, de preferência antes de Junho ou depois de Setembro que ainda é preciso guardar uns dias para o Natal e de caminho não deixar de responder a todos os e-mails do trabalho que para as nossas funções há muita gente à porta à espera. Isto se não formos empresários por conta própria, vulgo a recibos verdes: se não trabalharmos não só não ganhamos como gastamos e nem pensar em parar neste mundo onde a escravatura volta a reclamar o seu lugar.

Flexibilidade, dizem uns, é o mundo moderno, dizem outros, temos todos de nos adaptar, acrescentam em tom paternalista, desde que não os afecte ou aos filhos e quem se trama é o mexilhão. O resultado está à vista: Agosto já não é o que era e as multidões deslocam-se ao sabor dos fins-de-semana, tal como no ano inteiro, aliás, tirando tempo às famílias sem as devidas férias, separando casais, pais e filhos, tirando tempo e vida à vida.

Oxalá para o ano já não seja assim. Oxalá para o ano encontre família e amigos não só descansados, não só disponíveis, mas menos envelhecidos, menos saudosos de um outro tempo que tarda em voltar, quando entupíamos as estradas a caminho do mar e outros abraços.