Análise

Cimeira de risco médio em Brégançon

Macron recebe Putin em véspera da cimeira do G7.

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reuters

1. A troca de palavras inicial apenas confirmou a possibilidade de um encontro sem grandes resultados. Mesmo assim, o Presidente francês, que não tem medo de arriscar, convidou ontem o seu homólogo russo, Vladimir Putin, para uma “reunião de trabalho” no Forte de Brégançon, a residência de Verão dos habitantes do Eliseu, no Sul de França, cinco dias antes da cimeira do G7 a que presidirá em Biarritz. Emmanuel Macron também nunca escondeu os seus objectivos: devolver à França o seu papel de liderança da Europa, ao lado da Alemanha, e o seu estatuto de potência internacional com uma dose razoável de autonomia estratégica.

Praticamente todos os pontos da agenda dos líderes das sete democracias mais desenvolvidas do mundo, no próximo fim-de-semana, envolvem a Rússia, directa ou indirectamente. O Presidente francês gostaria de levar consigo alguns sinais de boa vontade de Putin para a resolução das questões mais quentes da agenda internacional: o Irão, para uma derradeira tentativa de salvar o acordo nuclear, mas também a Ucrânia ou a Síria, que constituem as duas mais incómodas “pedras” no sapato das relações entre a Rússia e a Europa. O risco está em que não tem havido quaisquer sinais de boa vontade da parte do Kremlin em relação a esses dossiers.

A eleição de um novo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski​, em Abril passado, seria uma “janela de oportunidade”, como referem na imprensa francesa fontes do Eliseu, para insuflar alguma vida aos acordos de Minsk de 2015, negociados por Paris e Berlim com Kiev e Moscovo, numa tentativa até agora falhada de resolver a guerra intermitente provocada pela ingerência militar russa na região do Donbass, Leste da Ucrânia, alegadamente em apoio das populações que falam russo e que defendem o separatismo. Será possível? A própria diplomacia francesa diz que é difícil, mesmo que insista em que é do interesse da Europa encontrar um terreno comum de cooperação com o seu grande vizinho do Leste, e o Presidente francês acrescente que é necessário manter um “diálogo directo e franco” com Moscovo. A ideia do Eliseu é relançar as negociações no chamado “formato Normandia” — entre a França, Alemanha, Rússia e Ucrânia. Moscovo não diz que não, mas vai acrescentando que só se houver alguma coisa de concreta para aprovar.

Ontem, à chegada a Brégançon, Vladimir Putin reforçou essa ideia, dizendo que não vê alternativa ao “formato Normandia”, sem se comprometer, no entanto, com a convocação de uma nova cimeira. Macron tinha dito que uma reunião entre os quatro líderes talvez fosse possível num prazo “de semanas”.

2. Segundo ponto de controvérsia inevitável nas primeiras declarações: as liberdades fundamentais. O Presidente francês desafiou Putin a respeitar os princípios básicos da democracia: “Apelámos para a liberdade de protestar, de falar, de ter opinião e para a realização de eleições livres, que devem ser integralmente respeitadas na Rússia como em qualquer outro país do Conselho da Europa.” A França ajudou recentemente a Rússia a regressar ao Conselho da Europa, do qual tinha sido suspensa. Conhecem-se os “incidentes” que têm marcado os últimos dias em Moscovo, com grandes manifestações contra o banimento dos candidatos da oposição às próximas eleições da cidade. Putin respondeu-lhe que a Rússia não queria ter os seus gilets jaunes, apenas “manifestações pacíficas”.

3. A ruptura das relações entre a Europa e a Rússia nasceu, precisamente, da crise ucraniana de 2014, quando tropas russas intervieram directamente na região do Donbass e quando anexaram a península da Crimeia, parte do território ucraniano onde se situa a mais importante base naval russa do mar Negro, em Sebastopol. Os europeus — e, em primeiro lugar, a Alemanha — perceberam que a Rússia se tinha transformado numa ameaça directa à sua segurança. Foi possível articular uma resposta conjunta com Washington, ainda no tempo de Obama, e foram decretadas sanções económicas que têm sido sistematicamente renovadas e que doem a uma economia muito dependente do investimento europeu. Nos últimos quatro anos, a política de interferência de Moscovo na União Europeia aumentou de intensidade, agora sob a forma de financiamento e de apoio aos partidos de extrema-direita e populistas — de Marine Le Pen, em França, a Viktor Orbán na Hungria, passando pela Liga de Salvini. Esta “conivência política” já conseguiu derrubar o Governo da Áustria, de coligação entre os conservadores de Sebastian Kurz e a extrema-direita.

4. Em 2017, durante a campanha presidencial francesa, o Kremlin começou por apostar em François Fillon, antigo primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy e candidato do centro-direita ao Eliseu, bastante mais condescendente com a Rússia do que o então presidente François Hollande. Na segunda volta, não escondeu o seu apoio a Marine Le Pen. Desconfiava do jovem Macron, apesar de o próprio ter defendido que a França tinha interesse numa política mais “gaullista” (ou seja, mais autónoma em relação a Washington) em relação à Rússia. Menos de três meses depois de ser eleito, Macron surpreendeu toda a gente ao convidar o seu homólogo russo para um encontro em Versailles, a pretexto das celebrações dos 300 anos da visita de Pedro, o Grande, a convite de Louis XV, para dizer a Putin que a Rússia só foi grande quando se abriu à Europa.

A visita não teve resultados dignos de nota, mas a relação entre os dois líderes manteve-se “activa” com uma deslocação de Macron a São Petersburgo e a ida de Putin a Paris para as celebrações do fim da I Guerra. “Os dois países não têm grandes ilusões” sobre o seu relacionamento, “nem são a prioridade um para o outro”, escreve o Libération, o que também ajuda à distensão.

Ver-se-á o resultado deste encontro, mesmo que a Rússia tenha muito pouco a dizer sobre o assunto que vai dominar as conversações do G7: o arrefecimento da economia global e a “guerra comercial” dos Estados Unidos com a China e com quem vier a seguir. De qualquer modo, com a chanceler alemã a viver o seu ocaso político e a Alemanha cada vez mais virada para si própria, com o Reino Unido mergulhado na sua maior crise existencial desde a II Guerra, o palco pertence quase todo ao Presidente francês para tentar fazer alguma diferença na frente externa europeia.