Está a formar-se um novo colosso no ciclismo mundial

O holandês Tom Dumoulin trocou a Sunweb pela Jumbo-Visma e fará parte de um trio que, em 2020, quer ganhar tudo no calendário internacional. Será uma dream team anti-Ineos ou uma “Movistar 2.0”?

Dumoulin celebra no Giro 2017
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Dumoulin celebra no Giro 2017 LUSA/ALESSANDRO DI MEO

Uma equipa, três estrelas: o ciclista holandês Tom Dumoulin é o novo reforço da Jumbo-Visma e junta-se a Primoz Roglic e Steven Kruijswijk numa formação que, em 2020, quer ganhar tudo no ciclismo mundial. Esta ideia pode ser resumida de outra forma: há, agora, provável e imeditamente, uma “dream team” para dar verdadeira luta individual e colectiva à poderosa Ineos.

A transferência marcante, anunciada nesta segunda-feira, traz um lote considerável de dados para analisar. Desde logo, do ponto de vista individual. Para Dumoulin, que passará a ganhar 2,5 milhões de euros anuais, bastante mais do que na Sunweb, é um evidente passo em frente. O holandês explicou a opção. 

“Como ciclistas, procuramos sempre o nível mais alto possível e questionamo-nos sobre se estamos no sítio certo e onde estão as boas oportunidades”, começou por justificar, para acrescentar: “Depois da desilusão de falhar a Volta a França [por lesão] e de me ver sentado, em casa, comecei a pensar que um novo contexto seria ‘refrescante’. Foi por isso que comecei a explorar o interesse de algumas equipas. Houve grandes ofertas e, nesta fase da carreira, senti que era a altura de dar este passo”.

Em matéria de força colectiva, com a adição de Dumoulin, a Jumbo forma, seguramente, um dos três melhores plantéis do ciclismo mundial. E mais do que a qualidade individual da equipa, o ponto-chave desta mudança na Jumbo é o eclectismo do próprio elenco: há Dumoulin, Roglic e Kruijswijk para atacar o triunfo nas “grandes voltas”, há Groenewegen a tentar confirmar o estatuto de melhor sprinter do mundo e há o jovem belga Wout van Aert preparado para uma época de sonho nas clássicas.

Mais: a Jumbo tem, neste momento, um lote de domestiques (ciclistas de segunda linha para ajudarem os líderes) de luxo, com nomes como Bennett, Gesink, Tony Martin, De Plus, Tolhoek ou Teunissen.

Em teoria, pouco ou nada poderá correr mal. Na prática, há um “fantasma” chamado “Movistar 2.0”, porque a presença de Dumoulin, Roglic e Kruijswik significa, à cabeça, um problema de gestão de recursos.

A Jumbo poderá querer dar uma “grande volta” a cada um dos líderes, “apostando as fichas” todas num só homem para cada uma das provas. Uma solução arriscada do ponto de vista desportivo, salomónica na gestão interna da equipa e das ambições individuais de três ciclistas que, em teoria, almejam vencer o Tour.

A outra hipótese é a Jumbo formar um duo ou até um trio com estes atletas, fortalecendo as probabilidades de vitória, mas dificultando a orgânica da equipa. E é aqui que residirá o maior desafio: formar um duo ou um trio de chefes-de-fila foi algo já experimentado, sem sucesso, pela Movistar (Quintana, Landa e Valverde), mas já testado, com sucesso, pela SKY (Froome-Thomas, Thomas-Bernal).

Ainda no lado problemático há os casos dos talentosos Laurens de Plus e George Bennett, sobretudo estes, que, com a chegada de Dumoulin, dificilmente terão hipótese de encabeçar a Jumbo numa grande volta.

Na “luta anti-Ineos”, a Jumbo contrapõe este “excesso de talento” com uma valência que a Movistar nunca teve: líderes fortes no contra-relógio.E isto significa dois cenários interessantes: por um lado, um contraste de estilos na competição directa entre o trepador Bernal (o regresso de Froome é uma incógnita) e um dos contra-relogistas da Jumbo.

Por outro, esta dissemelhança entre os favoritos dará aos organizadores das “grandes voltas” uma pressão adicional no desenho do perfil das corridas — um perfil pró-Bernal, com montanhas duras e uma carga reduzida de contra-relógio, ou um perfil pró-Jumbo, com predominância de “cronos”.

A transferência de Tom Dumoulin é, a jusante, uma opção de carreira tremenda para o holandês — que pela primeira vez terá uma equipa forte para o apoiar — e, a montante, um prenúncio de um 2020 recheado de dúvidas no ciclismo: será a Jumbo a primeira grande rival da Ineos ou apenas uma “nova Movistar”?