Autor de Maus acusa Marvel de censurar críticas a Trump

Prefácio de Art Spiegelman comparava o presidente norte-americano com o vilão da série Capitão América. Autor diz que empresa quer manter-se “apolítica”. Presidente da Marvel é amigo pessoal de Donald Trump e doou centenas de milhares de euros para a campanha do republicano em 2016.

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China Stringer Network/REUTERS

O autor de novelas gráficas Art Spiegelman diz ter sido alvo de pressões por parte da Marvel para que fossem retiradas críticas a Donald Trump, presidente norte-americano, escritas pelo autor no prefácio de uma nova publicação da editora. O vencedor do Prémio Pulitzer em 1992 pela obra Maus — banda desenhada que conta a relação entre o autor e o seu pai, um judeu polaco sobrevivente do Holocausto — alega que os responsáveis pela publicação deram como justificação a intenção de o texto se manter “apolítica”.

Art Spiegelman foi convidado a escrever uma introdução para a nova colecção de livros Marvel: The Golden Age 1939–1949,  resultante de uma parceria entre a gigante do entretenimento e a editora londrina Folio Society.

Traçando um paralelismo entre a banda desenhada e a realidade, o autor relembrou o modo como “jovens judeus criadores dos primeiros super-heróis” desenharam personagens míticas como forma de abordarem temas políticos como a Grande Depressão de 1929 ou a Segunda Guerra Mundial. No final do prefácio, veio o comentário que lhe valeu a repreensão: “No mundo demasiado real de hoje, o inimigo mais nefasto do Capitão América, o Caveira Vermelha, vive no ecrã, e um Caveira Laranja [referência a Trump] assombra a América.”

As editoras não apreciaram o comentário apresentado em Junho, fazendo-lhe inclusivamente um ultimato: ou retiraria a referência aos vilões da série Capitão América, ou a introdução ao livro não seria publicada. Art Spiegelman não aceitou esta imposição e o texto ficaria “na gaveta” até ao passado sábado, onde acabou por ser publicado no jornal britânico The Guardian, com o título “Super-heróis da idade dourada foram moldados pelo surgimento do fascismo”.

O norte-americano acrescentou uma nota ao texto onde descrevia a sua visão sobre a rejeição do prefácio, mas onde também detalhava que apenas tinha tomado conhecimento da proximidade entre Donald Trump e o presidente da Marvel na passada semana. Isaac Perlmutter é amigo pessoal do presidente norte-americano há décadas e, juntamente com a esposa, doou mais de 130 mil dólares (cerca de 117 mil euros) à campanha do então candidato republicano em 2016.

O prefácio da nova colecção da Marvel será escrito por Roy Thomas, sucessor de Stan Lee como editor-chefe da empresa.