Crónica

A luz de Lisboa

Um é português, o outro não fala português. Conversam em inglês. O que esperava está muito feliz por se poderem encontrar. Tem coisas a desabafar e precisa de conselhos.

As turistas francesas riem na esplanada, cúmplices naquela liberdade das férias acabadas de estrear, quando são deixadas a hibernar quaisquer que sejam as preocupações que tenhamos lá longe. Riem despreocupadas, felizes uma com a outra. Sem ver, olhavam o que as rodeava.

Sentada num banco, uma mulher de ar cansado fuma o cigarro oferecido por alguém que lhe passara ao alcance da mão. Um homem de barbas e cabelos compridos e desgrenhados passa entre as turistas e a mulher. Ri como bobo da corte sem ninguém para divertir a não ser ele mesmo. Não se percebe do que ri porque não se percebe o que balbucia, mas se aquilo não é um sorriso aberto e verdadeiro, não sabemos o que será.

Tira do casaco largo uma garrafa de cerveja que esvazia para um copo de plástico, que faz aparecer na mão com requinte de ilusionista, enquanto alterna gargalhadas com ladainhas onomatopeicas de onde, de quando em vez, emergem farrapos de poesia popular: “namorara eu com ela/ bum-trum-pum-pá/ namoraria ela comigo/ pá-trum-pum-bum”. Nem ele que canta, nem elas que se atarefam no arranque do idílio das férias, reparam na conversa, à porta do café, entre a mulher da Mouraria nascida longe há muito tempo e a mulher criada há menos tempo na Mouraria.

“Ele é que não se devia ter metido comigo, percebes?”, gesticula a mais velha, tão indignada quanto incrédula com a audácia inconsciente. “Da outra vez, o meu homem tinha chegado da Madeira — sabes que o mandaram para lá para a tropa? —, e abriu a barriga do outro de um canto ao outro, assim daqui até ali, ficou a segurar as tripas todas”. A indignação cai em silêncio pesaroso. “Nessa altura já me tinha separado dele. Ainda bem.” O rosto muito sério. “Quando me deu aquele murro no dia de Natal, e eu já estava a dormir na cama, marquei passagem. Fui-me embora.” A história acaba com um sussurro. “Mas depois não me queriam deixar ficar com os filhos.” A mulher que ouve não percebe muito bem o que tinha afinal acontecido com o outro que se meteu. Quanto ao resto, já sabia.

“Ó Maria, anda comer um bocado de bolo e falar um bocado comigo.” A mulher do banco perde o ar cansado, batido pela vida, ao reparar na amiga. Mas a amiga não pode, esteve na conversa, tem umas coisas para aviar. Ao banco regressa o cansaço triste, bolo numa mão, cigarro na outra.

Um homem corpulento de cabelo louro rapado, com casaco de motard, capacete enfiado no braço e relógio caro no pulso, levanta-se para cumprimentar aquele outro que chega amparado em muletas, cabelo liso precocemente grisalho colado ao crânio e um rosto chupado onde se desenham rugas vincadas pelo sol. Parelha improvável, aquela. Cumprimentam-se com afecto e respeito antes de se sentarem. Um é português, o outro não fala português. Conversam em inglês. O que esperava está muito feliz por se poderem encontrar. Tem coisas a desabafar e precisa de conselhos. Coisas do coração, explica. Não resultou com a namorada. Parece que nunca resulta, lamenta. Nunca controlamos as coisas do coração, começa o outro enquanto ajeita as muletas numa cadeira vazia.

A parelha improvável continua a falar das coisas do amor. As turistas levantam-se. Ainda a rir a mesma alegria de férias, caminham até desaparecerem na esquina. Vão à procura da luz de Lisboa.