Era uma vez uma cabeleireira que assaltava bancos

Actuava sozinha e despertou paixões mesmo na cadeia. Com uma pistola de brinquedo e vestida de escuro atacou uma dúzia de agências. Chamavam-lhe “viúva negra”.

Pinguim
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Ainda hoje não há memória de outro caso assim. A cabeleireira atacava sempre sozinha, e nunca perdia o controlo da situação. No espaço de ano e meio visitou uma dúzia de agências bancárias, e só da última vez saiu de mãos a abanar. O que faltava em experiência a esta mãe de dois filhos, sobrava-lhe na serenidade com que pedia aos funcionários dos bancos para lhe entregarem todo o dinheiro que tinham em caixa. Como instrumento de persuasão usava uma pistola. De plástico.

Os advogados bem alegaram que tinha andado a roubar bancos para matar a fome aos filhos. Que as dívidas que foi acumulando, mais a falta de emprego aliada a um relacionamento tumultuoso, tinham transformado a pacata mulher numa audaciosa assaltante. Mas na realidade nem tudo era exactamente assim, como comprovam as facturas de material informático que a cabeleireira foi comprando com os proventos de uma actividade que de lucrativa não teve tanto quanto esperaria.

Rendeu-lhe pouco mais de 16 mil euros a dúzia de assaltos que fez. Isso e uma sentença de sete anos de cadeia, quando tinha 45 anos. Antes de ter sido apanhada num dia de azar, a polícia chamava-lhe “viúva negra”, por se apresentar sempre vestida de escuro, disfarçada com óculos de sol e cabeleira preta, por vezes de boné. Era uma mulher como qualquer outra, no fundo: nem gorda nem magra, bem arranjada, discreta, rosto delgado. Um autêntico mistério para as autoridades, que andavam à procura de alguém já com cadastro.

A Tia, como também era conhecida, trabalhava sobretudo na linha de Cascais, e as suas proezas chegaram a despertar admiração entre gente do mundo do crime. Não fosse a sua breve carreira ter sido abruptamente interrompida por um gerente bancário mais afoito e talvez tivesse ficado com uma história de crime sem castigo na primeira pessoa para poder contar aos netos.

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“Não armes estrilho, se não queres dar cabo da tua vida num minuto.” Foi com esta frase que a cabeleireira abrilhantou a sua primeira actuação, no Banif da Parede, perante uma empregada bancária aterrorizada. “Quando saiu toda a gente do banco, ela chegou-se ao balcão onde eu estava, pousou uma arma que apontou na minha direcção e pediu-me que lhe entregasse todo o dinheiro”, descreveu a vítima em tribunal. Fez o que a assaltante lhe exigia e deu-lhe cinco mil euros.

Foi o primeiro dinheiro fácil de alguém habituado a trabalhar desde os 13 anos, altura em que deixou a escola. Primeiro como ajudante do salão de cabeleireiro da irmã, em Portalegre, depois com o seu próprio negócio, aos 20 anos, na mesma cidade. Teve o primeiro filho logo a seguir, uma menina, fruto de um primeiro relacionamento que, tal como esse salão já seu, também não havia de dar certo. Mudou-se para Lisboa aos 30, para refazer a vida: novo companheiro, segunda criança. Ia batalhando como podia, entre os cabelos da clientela e outros empregos mais ou menos temporários.

Antes de ter decidido mudar de vida tinha sido directora comercial de uma empresa de cosmética juntamente com o novo namorado, um personal trainer que não suspeitava da vida dupla que a companheira passara a levar. Habitavam numa vivenda na Rebelva, em Cascais, mas a cabeleireira acabou por ficar sem trabalho, na dependência do magro subsídio de desemprego. Já tinha consumado o primeiro assalto quando entrou na casa dele, onde entretanto havia deixado de morar, e lhe partiu todas as loiças Vista Alegre. Ainda lhe roubou um Rolex, lamentou-se o homem, contra quem a assaltante chegou a apresentar queixa por violência doméstica.

Continuava as visitas aos bancos a um ritmo irregular: tão depressa fazia dois assaltos num curto espaço de tempo, como ficava meses parada. A pistola de brinquedo era a sua companheira inseparável. Cobria-a sempre com uma peça de roupa, ou então com a mala, para que não se percebesse que a mortífera arma era afinal feita de plástico. Só deixava o cano à mostra. O risco nem sempre compensava: houve vezes que não conseguiu levar mais de cem euros. Tinha-se inspirado no perigoso “el solitario”, havia de se dizer mais tarde, um espanhol com mais de três dezenas de assaltos e dois homicídios no currículo e que cumpriu pena na cadeia em Monsanto.

Naquele dia fatídico, a 31 de Outubro de 2012, a assaltante entrou no Banif de Entrecampos depois da hora de almoço. Foi mais uma funcionária assustada a responder-lhe que só havia moedas na caixa. Virou-lhe costas, mas tarde demais: o gerente da dependência bancária tinha percebido que a pistola não disparava tiros de verdade e foi no seu encalço juntamente com um colega, desrespeitando o protocolo do sector para estas situações, que recomenda que os funcionários nunca ofereçam resistência. Trancaram-na na casa-de-banho da agência até chegar a polícia. Foi nessa altura que se descobriu que afinal a “viúva negra” era ruiva.

Manteve-se em silêncio durante todo o julgamento. Nem sequer falou das dívidas ao fisco com que justificou a sua actuação à polícia quando foi apanhada. Por vontade do Ministério Público, teria ficado bastante mais tempo atrás das grades. A aparente facilidade com que agia, em plena luz do dia, militou contra ela. “Vivia uma fase de instabilidade económica e também emocional, quer por ter ficado sem emprego quer em virtude da relação que manteve com o seu último companheiro, com episódios de agressividade que lhe perturbaram a auto-estima e confiança”, escreveram as juízas que lhe decretaram sete anos e meio de cadeia. Graças a um recurso viu perdoados seis meses.

Acabou por não cumprir a pena por inteiro. Saiu de Tires já lá vão dois anos. Casou no cárcere, com um preso de outra cadeia que conheceu por correspondência, e do qual se divorciou ainda na prisão. Voltou outra vez a arranjar cabelos. Nas fotografias do salão que abriu recentemente em Lisboa aparece vestida de negro.