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João Amorim: as viagens são a química da vida dele

Trocou a bioquímica pela arte de viajar. Começou por seguir o sol e agora é líder de viagens. “Procuro inspirar as pessoas a viajarem com um pouco mais de consciência”.

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Paulo Pimenta

Começa em tons de branco no glaciar Pastoruri e de azuis frios na lagoa Churup, no Peru. Mergulha no lago de Atitlán, na Guatemala, e faz o pino nas dunas de Huacachina. Vê a Colômbia reflectida em Punta Gallinas, trepa a montanha Arco-Íris, observa o céu estrelado do Parque Tayrona e o pôr do sol em pleno Lachuá. As fotografias partilhadas na conta @followthesuntravel são os dois últimos anos de João Amorim, bioquímico que descobriu nas viagens a química da vida.

“Se tivesse sido difícil de início”, recorda João, 27 anos, “provavelmente teria repensado mais cedo as coisas”. Mas o curso de Bioquímica, no Porto, foi simples, até. “Escolhi completamente à sorte. Fui viver sozinho. Tinha boas notas”. Às tantas, João Amorim, natural de São João da Madeira, “detestava tudo o que estava a fazer”. “Parecia um zombie. Estive muito próximo da depressão”, lembra o jovem, que passou parte da sua vida sem referências no mundo das viagens e da exploração do planeta. “Viajar era um sonho, não era uma realidade. Na verdade não entendia em concreto o que é que movia os viajantes e exploradores, o que os fazia viajar tanto.”

Ele viajava dentro do país. “Nem sequer queria sair do país”, assume. Preferia pegar na mochila e explorar o Gerês a ir “para Paris com a namorada”. “Pegava na carrinha que está naquela casa velha, uma Mazda de nove lugares com uma mala gigante, juntava amigos e andávamos a acampar por Portugal. Íamos quase três semanas e gastávamos menos de 100 euros. Nunca mais do que isso.” João já “fazia aquilo naturalmente”. Hoje é líder de viagens (para a agência Landscape), que é como quem diz pega num grupo e leva-o por aí fora – ao seu ritmo.

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João Amorim

A sua vida mudou verdadeiramente quando conheceu a Associação Gap Year. Estava a acabar o mestrado e viajar continuava a ser “uma coisa abstracta”. João e a namorada Tamara decidiram então concorrer a uma bolsa. E ganharam. “A nossa proposta era viajar pela América Latina. Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia e Peru até ao México. Fomos sempre a seguir o Verão e a seguir o sol. Quando cheguei a Portugal era outra vez Verão”, conta João Amorim, que umas semanas antes da resposta da Gap Year Portugal decidira explorar o sótão de família à procura de alguns livros, outros “companheiros” de viagem. “Já tinha decidido que queria viajar, que me ia despedir. E já nos tínhamos candidatado a essa bolsa. Entre milhares de livros, peguei em três: um sobre o Egipto, O Principezinho, recomendado pela Tamara, e o livro Sabedoria do Milénio, com frases inspiradoras. Nesse último encontrou sublinhada uma frase que já lera num bilhete escrito pelo seu avô, que entretanto falecera. “Não corras, não te aflijas, só estás aqui de passagem e é curta a tua visita. O importante é parar e cheirar as flores”. Disse-o um dia Walter Hagen, um dos melhores golfistas de sempre. Pratica-o @followthesuntravel. “Na altura senti que era um sinal. Pensei ‘estás no bom caminho’.”

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No regresso, já não voltou para a bioquímica. Preferiu trabalhar numa vidraria e numa serralharia. “Era brutal! Foi super-importante para a minha sanidade mental”, recorda João, que entretanto amadurecera uma ideia: queria replicar os passeios que organizava com os amigos na velha Mazda, mas do outro lado do mundo. “Conheci o Rafael [Polónia] da Landscape e quando dei por mim percebi que era líder de viagens.” Lidera viagens na Guatemala, Colômbia e Peru – e prepara-se para juntar a Islândia à sua lista.

Colômbia, Parque Tayrona. Floresta tropical, enseadas e lagoas entre o sopé da serra Nevada de Santa Marta e a costa caraíba. No coração de Tayrona há ruínas, terraços e povoações só acessíveis através de trilhos. “Fomos uma hora de moto, montanha acima. Éramos dez e fomos em dez motos. Tínhamos um condutor por moto e só um deles já lá tinha estado – tal era o isolamento daquela povoação. Durante a visita a uma tribo alguém me disse ‘não estás no jardim zoológico’. Fiquei triste. Eu é que me sentia observado. Disse que só os queria conhecer, que tinha tirado fotografias e que queria voltar para as mostrar. Acho que essa informação revela compromisso. Sabem que está ali uma pessoa que vai voltar. Acho que fez toda a diferença. Já criei muitas relações por causa das fotos que levo às pessoas. Há quem anote na agenda que eu vou lá voltar naquele dia específico.”

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o indispensável boné amarelo
Os objectos de João Amorim: o indispensável boné amarelo Paulo Pimenta
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Os objectos de João Amorim: sempre presente a máquina fotográfica Paulo Pimenta
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Os objectos de João Amorim: o telemóvel acompanha-o sempre Paulo Pimenta
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Dois anos de grupos – dois anos de Instagram também – fazem com que acredite que “não viajamos todos da mesma forma”. “É importante que as pessoas entendam isso”, diz @followthesuntravel, 30 mil seguidores nesta rede social, que vê o conceito “influenciar” como “uma forma de educar”. “Chegar a uma cascata, tirar uma selfie e ir embora, como acontece diariamente na Islândia, destrói os lugares. Não há troca de experiências. A forma de viajar que exige mais de ti, quando visitas os mercados, quando andas à boleia ou quando te dás mais às pessoas que conheces, é a mais enriquecedora tanto para quem visita como para os locais. Temos muito a aprender com padrões de vida diferentes”, resume João, que diariamente, principalmente através de stories, tenta “mostrar as vantagens de viajar a sério” e, quem sabe, “mudar mentalidades”.

“Procuro inspirar as pessoas a viajarem com um pouco mais de consciência”, diz. No fim da rua ou no fim do mundo. “Podes ficar num resort e ser uma boa influência para as pessoas que lá trabalham”, responde. “Partilhar, mas com uma influência positiva”.

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