Sindicato e Governo em maratona para desconvocar a greve

Desde que a greve arrancou, às 00h00 de segunda-feira, SIMM e SNMMP não estiveram lado a lado, mas cada um a travar a sua luta e a usar as suas armas. Sindicato de motoristas de matéria perigosas ficou a correr sozinho

,SIC Notícias
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LUSA/Tiago Petinga

Depois da assinatura de um memorando de entendimento com a Fectrans na quarta-feira, e de um pré-acordo com o Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM), na quinta, esta sexta-feira foi a vez do Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) passar a tarde no Ministério das infra-estruturas, para tentar desbloquear o conflito com a Antram, a associação de transportadoras. Durante mais de sete horas, Ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, o Secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita, e presidente e porta-voz do SNMMP, Francisco São Bento e Pedro Pardal Henriques, estiveram a negociar os termos da desconvocação da greve e a forma de sentar as partes à mesma mesa. Às 23h00 o encontro ainda não tinha terminado. O SIMM desconvocou a greve ao quarto dia, sem oferecer grande resistência.

Anacleto Rodrigues, porta-voz do SIMM explicou-o sucintamente à saída da reunião onde na quinta-feira, cerca das 23h00, anunciou ao país que a greve estava desconvocada. E toda a direcção do sindicato o irá explicar aos associados, em detalhe, num plenário convocado para este sábado em Viseu, porque é que saíram do protesto, e deixaram o SNMMP a falar sozinho. Ao PÚBLICO, Jorge Cordeiro, presidente do SIMM resumiu o sucedido mais ainda: “O SNMMP andou sempre a falar sozinho, e a decidir as coisas sozinho”.

Já sem esconder a ruptura entre os dois sindicatos – que marcaram congressos em conjunto, combinaram plenários e acções de luta –, a verdade é que desde que a greve arrancou, às 00h00 de segunda-feira, cada estrutura esteve a travar a sua luta e a usar as suas armas. A ruptura, aliás, aconteceu mesmo no plenário de Aveiras do passado Domingo, onde a opinião dos dirigentes do SIMM não foi tida em conta.

“Nós nunca fomos em discursos de não cumprir serviços mínimos, de falhar a requisição civil. Sempre quisemos actuar dentro da legalidade. E quatro dias depois desta luta, não quero deixar de agradecer aos homens que estiveram a lutar, sempre com civismo, e às autoridades que também nos acompanharam no que foi preciso”, disse Jorge Cordeiro, referindo-se à ligação que manteve com o Comando Territorial da GNR para articular intervenções em caso de desacatos.

Depois de quatro dias no terreno, em greve, Jorge Cordeiro diz que “aprendeu muitas coisas”. Nomeadamente o facto de ter conseguido mobilizar os seus associados – “Representamos cerca de 2,5% dos motoristas. E os nossos estiveram lá”. Contudo, reconhece que não tem tido sucesso em arregimentar para a luta os mais de 40 mil motoristas que não pertencem a agremiações sindicais. E, no final, afirma, “vão todos sair vencedores, uma vez que a luta que estes sindicatos estão a travar vai melhorar a vida de todos os motoristas”.

Sobre sindicatos também aprendeu algumas lições. “Disseram-nos que éramos um sindicato com pouca experiência. Agora, mais do que nunca, percebi porquê. Porque quando devíamos ter ficado a negociar, e a bater na mesa se fosse preciso, virámos as costas às negociações e convocámos uma greve”, admitiu Jorge Cordeiro. Mas, insiste, no fim de contas “o que interessa são os resultados, e a melhoria das condições de vida dos motoristas”. O SIMM continua a negociar no dia 15 de Setembro, e ficou “muito satisfeito” por ver que algumas propostas que estão a ser discutidas para integrar o contrato colectivo de trabalho vertical (CCTV) que vai vigorar em Janeiro são as mesmas que tinham sido propostas pelo sindicato dos motoristas de mercadorias.

“Ficámos satisfeitos por ver que as propostas para alterar a redacção da cláusula 61, por exemplo, estão completamente ao encontro de aquilo que tínhamos pedido. Passa a haver uma nova fórmula de cálculo. 

Motoristas levantaram piquete antes do anúncio

O quinto dia começou, como sempre, com declarações duras do SNMMP, com o presidente, Francisco São Bento, a convocar os jornalistas para reagir à saída do SIMM da greve que ambos convocaram, e a dizer que os motoristas de matérias perigosas continuariam a lutar, “duros como o aço” e dispostos a manter a greve “um mês, seis meses, um ano, seja o tempo que for”.

À hora de almoço, Francisco São Bento enviaria um comunicado urgente às redacções a revelar que a nomeação, por parte da DGERT de um mediador criava as condições para os motoristas voltarem a negociar, pelo que a greve poderia ser suspensa a partir do momento em que o Governo marcasse uma reunião com os patrões e até à realização de um plenário a convocar para domingo, em que os trabalhadores decidiriam “pelo seu futuro”.

O comunicado do SNMMP falava de um “mediador nomeado hoje [sexta-feira]”, mas na verdade, como confirmou o PÚBLICO junto de fonte do Ministério do Trabalho, o mediador em causa (uma técnica da DGERT) já tinha sido nomeado na quinta-feira, quando Pedro Pardal Henriques (o porta-voz do SNMMP) convocou a Antram para uma reunião à porta da DGERT e saiu de lá a anunciar que havia pedido o processo de mediação.

“Assim que o SNMMP fez o pedido, a DGERT nomeou como mediadora uma técnica desta Direção Geral, que de imediato deu início ao processo de mediação”, explicou fonte do Ministério. Foi enviada uma comunicação escrita à Antram dando conta do requerimento do SNMMP, tendo a associação patronal respondido que “sem prévio levantamento da greve, a mediação se encontra condenada ao seu insucesso, por não estarem minimamente reunidas as condições de serenidade que devem presidir a um processo de mediação”.

O que mudou de quinta para sexta? Nada, a não ser a disponibilidade do Sindicato das Matérias Perigosas para começar a negociar. O Governo convocou-os para uma reunião às 16h00, e esta prolongou-se por horas. Tanto que, ainda sem haver confirmação da suspensão de greve, os piquetes de greve começaram a desmobilizar. Foi o que se passou em Leça da Palmeira, com toda a gente a ir para casa perto das 18h00. Uma atitude temporária, disseram os motoristas no local, para logo a seguir prometeram regressar no sábado, caso o desfecho da reunião do sindicato com o Governo o justifique. Com Ana Brito