Reportagem

Os black midi foram a agulha no palheiro no regresso morno de Father John Misty a Paredes de Coura

Ao terceiro dia do festival, os londrinos conseguiram intrometer-se com o seu rock 2.0 entre nomes maiores de um alinhamento que também incluía os Spiritualized e os Deerhunter.

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black midi Paulo Pimenta
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Numa era em que há novos álbuns editados diariamente e de acesso quase imediato, a partir da barra de busca de uma das várias plataformas de streaming, nunca foi tão difícil encontrar aquela banda que não soa ao mesmo que a outra na qual tropeçámos dias antes. Escavar, à procura da “nova grande cena”, um espaço cibernético atafulhado pelas dezenas ou centenas (serão milhares?) de novos trabalhos atirados todas as semanas para uma nuvem com espaço ilimitado tornou-se uma missão quase tão difícil quanto a de achar vida em Marte.

Como com quase tudo o que teima em não aparecer, é quando deixamos de procurar que esbarramos com o que queremos encontrar. Ao terceiro round da 27.ª edição do Vodafone Paredes de Coura, tivemos um desses momentos. Não que algo tivesse manchado a actuação das três bandas que repartiam os créditos de cabeça-de-cartaz. Father John Misty fez tudo bem, mas nada além do que já o vimos fazer neste mesmo palco ou noutras das suas várias actuações anteriores pelo nosso país. Os Deerhunter encontraram o equilíbrio perfeito entre o pessimismo e a esperança. E os Spiritualized, numa actuação de picos, elevaram a sua música a outro patamar com a ajuda de um coro de três vocalistas gospel.

Mas foi uns metros mais acima do grande pedestal onde actuaram as três bandas, no palco mais pequeno e mais escondido do festival, que voltámos a achar os desconcertantes black midi e o caos organizado do rock fresco e surpreendente que fazem, depois de um primeiro encontro em Outubro passado, então sem qualquer garantia de que os voltaríamos a ver.

Os londrinos passaram pela última edição do Festival Mucho Flow, em Guimarães, para tocarem numa das salas do CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura. Na altura, estavam referenciados por algumas publicações da especialidade como sendo, a par dos Shame, que estiveram em Coura em 2018, uma das melhores bandas ao vivo da actualidade no Reino Unido. Embora nos tenha parecido exagerada a referência, face a uma actuação muito acima da média candidatámos a banda a prova dos nove a ser feita noutra oportunidade.

Se o Mucho Flow lhes abriu as portas de entrada em Portugal, numa altura em que ainda não tinham álbum gravado, Paredes de Coura apresentou-os a um público mais largo, agora já com Schlagenheim, editado em Junho deste ano. Em boa hora o fez, e em boa hora quis a agenda dos londrinos que a melhor data para actuarem fosse sexta-feira, juntando-se a um alinhamento que não insinuava a possibilidade de surpresas maiores. Os britânicos seriam a injecção de adrenalina de que o terceiro dia do festival precisava.

Vão buscar o nome ao género musical japonês que recorre a maquinaria, a partir de ficheiros MIDI –​ que optam por grafar sem maiúsculas. Compostos por seres humanos, aparentemente sem qualquer adição biónica, soam como a máquina mais poderosa do rock 2.0. Têm a aparência e o som sujo de uma banda de garage, mas encostam-se ao math rock com frequência, sem qualquer tipo de pedantismo virtuoso. Ao noise vão quando querem abrir uma via para o caos, mas sempre de forma organizada e sem perder a musicalidade, conseguindo encaixar o ruído numa estrutura musical tudo menos dispersa.

Os black midi são quatro rapazes com ar juvenil e bem comportado, mas em palco fazem música com o charme de quem pode exibir alguns cabelos brancos sem que isso seja sinónimo de velhice. Sem dirigir uma única palavra ao público, foram alinhamento fora, seguindo uma base musical aparentemente desleixada, mas muito segura. As vozes são repartidas a três, sendo que a de Geordie Greep, o também guitarrista que parece mais atirar palavras do que cantar, algumas vezes perto de uma cadência rezingona, tem mais preponderância do que as do baixista Cameron Picton e do guitarrista Matt Kelvin; estes, quando se aproximam do microfone, fazem-no para berrar num registo próximo do usado no post-hardcore.

O som dos londrinos é viciante e suga todas as atenções para o que fazem em palco. Com apenas dois anos de banda e um álbum na carteira, mas já com muitos quilómetros de estrada, os black midi arriscam-se a subir vários degraus num só passo a muito curto prazo.

Aplausos primeiro, música depois

Ao contrário do que sucederá com os black midi, há muito que as três bandas que fecharam o palco principal já não sentirão a ansiedade e o receio de enfrentar um público pela primeira vez. Com a experiência perde-se o efeito-surpresa, mas poderá trazer algum conforto chegar a um palco e ter à frente uma plateia conquistada mesmo antes de se tocarem os primeiros acordes. São os privilégios conquistados por direito próprio por bandas que já cá andam há tempo suficiente para os poderem aproveitar, casos de Father John Misty, Deerhunter e Spiritualized.

O primeiro, alter-ego de John Tillman, com um passado que o liga aos Fleet Foxes, continua certinho como um relógio suíço. Em palco, com um trio de sopros a dar consistência aos temas do último God's Favorite Customer, é irrepreensível sem sequer ter de se esforçar para isso. O indie folk que faz não chega à genialidade da banda de que foi baterista até 2012; não há nada, porém, que se lhe possa apontar tecnicamente. Dito isto, o significado desta afirmação pode ser ambíguo. A perfeição pode andar de mãos dadas com a indiferença. Não é o caso de Misty, que tem argumentos a nível de composição e público que o segue. Mas, talvez não lhe fizesse mal sair um pouco da zona de conforto para poder reinventar-se.

Os Spiritualized tentaram fazê-lo, adicionando a um palco aberto com vista para o fundo, sem nada nem ninguém a impedir a visão – Jason Pierce esteve durante todo o concerto sentado, encostado ao lado direito –, um coro gospel composto por três vocalistas. Estas elevaram a banda do também fundador dos Spacemen 3 a outro patamar, sobretudo nos temas do novo álbum ...And Nothing Hurt, quando a actuação passou por uma fase mais introspectiva, depois de um início inclinado para a fase space rock repescado já perto do final do concerto. Entre altos e baixos, conseguiram recuperar o fôlego para terminarem com nota positiva.

Já os Deerhunter foram mais sólidos. Numa fase mais pessimista desde que lançaram, já este ano, Hasn't Everything Already Disappeared?, facilmente saem desse estado de espírito para saltarem sem qualquer prurido ou problema de consciência para a festa mais sem-vergonha. Algures durante o concerto, tocaram pela primeira vez em Portugal Coronado, tema de Halcyon Digest (2010), com saxofone a evidenciar-se. Bastante comunicativo, o vocalista/guitarrista Bradford Cox disse estar a escavar o universo da música portuguesa. Perguntou se alguém conhecia Nuno Canavarro e os Street Kids. Ficou à espera de resposta.