Rui Gaudêncio
Mantas de lã alentejanas

Tecer o tempo a quatro tons

No mundo das tecedeiras há “sarilhos” e “carinhosas”. Há medidas próprias. Ritmos singulares. Há uma cultura misteriosa, feminina, transmitida através de gestos que se transformam em padrões, repetidos até à exaustão. Uma linguagem cifrada que D. Helena, tecedeira de Mértola, conhece como ninguém.

Primeiro lava-se a lã em casa, com água quente. A lã é sovada e depois levada para a ribeira, onde é enxaguada em água fria, dentro de canastras. Estende-se ao Sol para secar, e então é batida com varas de loendro. Segue-se o “cramear”: com os dedos, solta-se a lã em pastas. Depois, também com os dedos, espalha-se pela lã o azeite, em gotinhas, para lhe dar elasticidade. É o “azeitar”. A seguir vem o cardar, que antigamente era um ofício independente, praticado por homens. Com pares de cardas, a lã é cardada, e fica pronta para fiar. Na roca a lã é fiada. Depois, fazem-se as meadas com a ajuda de um instrumento chamado sarilho. Depois do “sarilhar”, a lã é lavada novamente, com água quente e sabão azul — para retirar a gordura do azeite — e enxaguada com água fria. Fazem-se novelos com a dobadoira, é o “dobar”. Enchem-se as canelas, enrolando o fio de lã. Uma canela para cada cor. Cada canela na sua lançadeira, uma espécie de barquinho que percorre o tear de um lado para o outro, passando o fio, um para lá, um para cá, formando a trama. Prepara-se a teia num processo chamado urdidura.